quinta-feira, 11 de março de 2010

ROGAI POR NÓS.

(Esta crônica fopi escrita no dia seguinte ao terremoto que devastou o Haiti)

É quarta-feira à tarde e faz um calor insuportável; os trovões rugem nos céus e da minha janela eu posso ver a chuva fresca caindo sobre a serra de Campos do Jordão... mas isso, só lá: aqui em casa, que é bom, não cai nem uma gota sequer!

E eu, sentada em frente à tela luminosa do computador, fico repassando na mente as últimas vinte e quatro horas que vivi, vinte e quatro horas recheadas de fatos diversos, cheias de novas informações e experiências, intensas e compensadoras (para mim, é isto que faz valer a pena viver: o aprendizado!).

Eu aprendo com tudo: com gente, com situações, com plantas (qualquer dia eu falo sobre os meus insights desencadeados por plantas), com animais, com tudo o que me cerca... sou aprendiz de tudo em tempo integral, é isto o que melhor me define.

Por exemplo, hoje cedo fiquei mais de quarenta minutos sentada sozinha na praça central de Caçapava, enquanto esperava que o perito vistoriasse meu carro para eu poder consertar o estrago causado por uma colisão traseira ocorrida dias atrás. Não, não foi minha culpa, mas está me dando muito trabalho e chateação mesmo assim.

E enquanto ficava ali sentada, bebendo água e olhando as pessoas à minha volta, percebi um grupo de senhores já idosos sentados no banco ao lado, conversando animadamente sobre temas diversos. Pelo que pude notar este encontro não foi casual e acredito mesmo que ele seja quase que um ritual social, que seja aquele tipo de encontro diário, fraterno e bom que os sortudos aposentados, que já não são escravos do relógio, podem vivenciar (um dia eu chego lá!).

Dou a mão à palmatória: sou mesmo curiosa e estiquei meus ouvidos xeretas para poder escutar a conversa (o que é uma coisa muito feia que você nunca deve fazer, certo?). De um deles ouvi um relato bem completo sobre a tragédia causada pelo terremoto de ontem no Haiti, assunto que fiquei pesquisando na internet até tarde da noite.
Eu não sei de onde ele tirou as informações dele, mas elas eram tão boas e completas quanto as minhas, o que me levou a considerar a idéia de que ele também ficou insone noite adentro, procurando por fatos novos. A única dúvida que ele ainda tinha era se havia ou não brasileiros entre as vítimas fatais do terremoto, mas infelizmente, nesta altura do dia, com o Sol já se pondo, eu pude acessar a notícia de que há sim alguns brasileiros mortos pelos desabamentos causados pelo tremor.

De um outro senhor ouvi um desabafo sobre essa nova estocada do governo sobre o povo, de querer passar por cima da Lei da Anistia, que eles agarraram com as duas mãos quando interessou a eles, para desenterrar alguns esqueletos selecionados do tempo da ditadura militar ( mas apenas os que interessam ao governo; os outros podem continuar repousando tranqüilos em suas covas silenciosas).

Ele falou mais ou menso assim: -“O povo ainda não percebeu que a ditadura voltou, só que agora camuflada e sorridente, mas nem por isso menos despótica”.

Uau, gente! Sinceramente, eu tive vontade de me meter no meio da conversa para cumprimentar e abraçar o velhinho, um cidadão consciente, crítico e atuante ainda, mesmo naquela idade avançada. Mas, como eles iriam achar que eu estava louca e daí eu teria que sair daquela sombra confortável para ir esperar pelo meu carro em algum lugar menos agradável, preferi ficar quietinha mesmo, festejando só por dentro a minha constatação.

Depois, me pus a rememorar as imagens (poucas, por sinal) que consegui capturar na internet sobre o tal terremoto e me pus a pensar: poderia ter sido aqui.

Olhei as belas casinhas, as árvores maravilhosas da praça e as pessoas profundamente concentradas nos seus sonhos pessoais, tão centradas em suas vidinhas e alheias ao resto quee fiquei mesmo preocupada.

É, poderia mesmo ter sido aqui, não há nada que impeça que isto aconteça. Mesmo porque, pelo visto, Deus resolveu pedir cidadania em outro país e, por conta disto, teremos que abandonar o já famoso jargão “Deus é brasileiro!”

Era brasileiro, meu bem, era! (ou será que não temos sofrido com as chuvas excessivas, as secas cruéis, as enchentes, os tufões, os deslizamentos, e agora... tremores?).

Vamos aos fatos: tremores de terra recentes no Brasil até agora: DIA 30/12 - Presidente Figueiredo/AM - magnitude 3.0 / DIA 02/01 - Sobral/CE – magnitude 2.7 / DIA 09/01 - João Câmara/RN – magnitude 2.0 / DIA 11/01 - Taipu/RN - magnitude 3.8 / DIA 11/01 - Vitória/ES magnitude ainda não divulgada.

E pensei: -"Nossa, precisamos urgentemente rezar, orar, mentalizar a luz e o bem; precisamos fazer a nossa parte, fazer o que for possível para ao menos tentarmos evitar que toda esta dor algum dia recaia sobre a nossa terrinha (e pensei assim acometida por um bairrismo egoista de dar dó, como se um ser humano do Haiti fosse diferente de um ser humano brasileiro em algum aspecto; como se fossemos algum tipo de ser especial nos planos da criação... É inacreditável como somos vaidosos e meio cegos: lá tudo pode, aqui não!).

E assim, por achar que o momento é propício para a prece e a irradiação de luz para toda humanidade, orei mais ou menos assim:

-“Para que possamos resistir ao ar que respiramos, todo cheio de impurezas” - rogai por nós

-“Para que paremos de assassinar rios, peixes, baleias, golfinhos e animais de belas pelagens, eternamente movidos pela nossa ânsia de consumo e pela nossa excessiva vaidade” - rogai por nós.

-“Para que possamos ver nossos netos nascerem numa Terra ainda viva” - rogai por nós.

-“Para que compreendamos que temos que parar de usar o planeta como lata de lixo” - rogai por nós.

-“Para que resolvamos encarar de frente nossas responsabilidades para com as gerações futuras, que precisarão de alimentos, água e ar puros para sobreviver” - rogai por nós.

-“Para que paremos de pensar a vida em termos de números e estatísticas” - rogai por nós.”

-Para que o SER seja mais importante do que o TER” - rogai por nós.

-“Para que minhas mãos não precisem mais se cerrar em movimentos de defesa contra meus irmãos e possam se abrir, doadoras de dádivas fraternas” - rogai por nós.

-“Para que aqueles que têm muito se curem daquela cegueira crônica que os impede de enxergar aqueles que nada têm” - rogai por nós.

-“E, se não for pedir muito, abençoai-nos com o perdão pela nossa voracidade, pelo nosso egoísmo, pela nossa inconseqüência, pela nossa crueldade e desrespeito para com as formas de vida diferentes de nós... abençoai-nos para que não tenhamos que amargar, em breve, a mesma dor que enfrentam nossos irmãos do Haiti no dia de hoje... amém”.

Bem, eu ainda não sei para qual santo ou santa irei rezar esta minha oração, quase uma ladainha, mas sei que ele ou ela terá que ser um santo forte, incrivelmente competente e corajoso, porque a situação atual já está bem feia e eu nem sei se ainda há algum caminho de volta...
E então, qual santo vocês me sugerem?

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A VIDA ACONTECE NO SALÃO DE BELEZA.

Ontem eu, teimosa que sou, decidi mais uma vez dialogar com os cachos do meu cabelo, na esperança de convencê-los a darem tréguas ou a, quem sabe, se suavizarem.

Sim, porque nestes tempos velozes de muita pressa, muitos compromissos e de uma incondicional paixão popular pelos cabelos lisos, não é muito simples ter que lidar com meus cachos pouco dóceis e nada compreensivos, cachos que já se levantam da cama armados até os dentes para a guerra.

Aliás, cabe aqui uma pequena explanação: não são exatamente cachos, porque se fossem eu até que seria feliz... eu me pareceria com um querubim barroco ou assumiria um visual mais “descolado” e seguiria em frente, sem pestanejar. Mas não, não são cachos, são ondas. Em vez de cachos tenho ondas! Lugar de onda é no mar, certo? Então, o que elas estão fazendo aqui?

Claro que, experiente que sou, decidi usar alguns argumentos mais efetivos para tal negociação, visto que minhas armas pessoais, a escova e o secador de cabelos caseiros, são singelas demais para o profissionalismo destas ondas rebeldes. E assim fui à cabeleireira, uma profissional que ocasionalmente doma minhas madeixas com alguns produtos químicos bastante fedorentos que se intitulam pomposamente de “escova progressiva”. E assim lá vou eu, ficar sentada quietinha enquanto aquela gosma branca e mal cheirosa é pacientemente espalhada, escovada e alisada nos fios do meu cabelo.

Depois de folhear algumas revistas mais ou menos antigas não sobra muito para fazer a não ser prestar atenção às conversas das outras clientes, que fazem as unhas ou apenas interagem umas com as outras em animados bate-papos enquanto eu fico ali, com meus olhos lacrimejantes e meu nariz ardendo terrivelmente com os vapores que saem do cabelo superaquecido pela chapinha, me perguntando (e respondendo a mim mesma) de quando em vez: “Quem será que teve esta idéia brilhante de adicionar formol a uma formula capilar para alisar cabelos? Não sei, e o duro é que funciona!”. E, mesmo sem querer, vou ouvindo incríveis confissões sobre problemas domésticos, dúvidas religiosas e relacionamentos ardentes.

A conversa segue animada com a participação de todas e as idéias e palpites pululam aqui e ali. Receitas culinárias são trocadas, simpatias são ensinadas, opiniões sobre personagens de novelas mais ou menos maus são expressas e defendidas apaixonadamente e os assuntos se multiplicam, numa cumplicidade instantâneas, estranhamente capaz de colocar mulheres muito á vontade entre as quatro paredes de um salão.

As vantagens e desvantagens do batismo precoce das crianças vêm à tona e as opiniões divergem. Tenho que admitir que nem todas as colocações que ouvi foram inteligentes, lógicas, coerente ou sensatas. De uma moça presente, que defendia a idéia de só se batizar os filhos mais velhos, quando eles pudessem dizer que gostariam de ser batizados, ouvi a pérola: -“A Igreja Católica diz que a gente tem que batizar os filhos porque todos nós nascemos com o pecado da castidade!” Puxa vida, e eu que sempre pensei que a tal castidade fosse uma virtude?

De outra ouvi que marido a gente só consegue manter fiel e ao lado da gente quando não faltam em casa “cama e comida boas”, num claro apelo aos instintos mais primários do ser humano (amigas: esta foi inteligente, não foi?).

De uma senhora muito idosa, porém bastante vaidosa e simpática, ouvi um breve discurso sobre a falta de respeito das crianças de hoje pelos mais velhos e fiquei encantada quando ela, muito lúcida, atribuiu a culpa pelo problema às famílias desengonçadas e mal alinhavadas da nossa atual sociedade e não aos professores, os eternos culpados de tudo de ruim que acontece hoje em dia quando se trata de crianças ou adolescentes desajustados, violentos ou mal educados. Gente, é sério: quase me levantei da cadeira, com os cabelos ainda mezzo mussarela, mezzo calabresa, para aplaudir a velhinha, pois tenho a convicção de que se não houvesse a atuação dos professores em sala de aulas, domando más tendências e reparando alguns estragos emocionais vindos do lar, a coisa seria bem pior do que já é.

Enfim, meu cabelo ficou pronto (ou quase: o cheiro ruinzinho ainda persiste, pois só poderei lavá-lo daqui a dois dias, sob pena de perder os “efeitos lisos” do produto se lavar antes) e, pagando pelo serviço, me dirigi à porta carregando a sensação de ter sido testemunha de um momento intenso de intimidade entre estranhos, um momento Felliniano mesmo, onde o improvável (confissões íntimas entre estranhas) pode acontecer com toda naturalidade do mundo.

Uma última colocação: desculpem, homens, mas vocês nunca conseguirão participar de algo assim, pois é privilégio da alma feminina, a grande responsável pela manutenção da vida no planeta e da paz possível entre os homens, esta capacidade de ser e compartilhar amistosamente aquilo que se pensa, sente e pratica com outros seres humanos, sem grandes reservas ou desconfianças.

Mas não desistam ainda: se houver (e deve haver) reencarnação sobre o planeta, ainda há chance de vocês voltarem como mulheres e assim transcenderem estes limites meio estreitos que os acompanham e limitam, ok?

Tenham todos um ótimo fim de dia!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

PROFECIA HOPI.

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A extraordinária profecia Hopi que se segue foi primeiramente publicada num manuscrito mimeografado que circulou entre diversas igrejas Metodistas e Presbiterianas norte-americanas em 1959. Algumas das profecias foram publicadas em 1963 por Frank Waters em The Book of the Hopi. O relato começava descrevendo como, quando dirigia através de uma rodovia no deserto em um dia quente do verão de 1958, um sacerdote chamado David Young parou para oferecer uma carona a um ancião índio, que aceitou com um aceno. Após viajar em silêncio por vários minutos, o índio disse:

"Eu sou Pena Branca, um Hopi do antigo Clã Urso. Em minha longa existência eu pude viajar através deste mundo, buscando por meus irmãos, e aprendendo deles muitas coisas plenas de sabedoria. Eu segui pelas trilhas sagradas de meu povo, que vive nas matas e nos muitos lagos do leste, na terra do gelo e das longas noites no norte, e nos lugares dos sagrados altares de pedra construídos muitos anos atrás pelos ancestrais de meus irmãos no sul. De todos estes eu escutei as histórias do passado, e as profecias do futuro. Hoje, muitas das profecias viraram história, e poucas restam por acontecer - o passado se torna longo, e o futuro se torna curto.

"E agora Pena Branca está morrendo. Todos os seus filhos congraçaram com seus ancestrais, e logo ele também deve estar junto a estes. Mas não sobrou ninguém, ninguém para declamar e passar adiante a antiga sabedoria. Meu povo se cansou dos velhos costumes - as grandes cerimônias que contavam de suas origens, de seu despertar para o Quarto Mundo, tudo foi abandonado, esquecido, mesmo havendo chegado a ser recontado. O tempo se tornou curto.

"Meu povo aguarda por Pahana, o Irmão Branco desaparecido, [lá das estrelas] assim como todos nossos irmãos neste mundo. Ele não será como o homem branco que conhecemos agora, que são cruéis e ambiciosos. Nós falamos de sua vinda há muito tempo. Mas ainda aguardamos por Pahana.

"Ele trará consigo os símbolos, e a peça faltante dessa mensagem sagrada que agora é guardada pelos anciãos, e que nos foi dado quando ele partiu, o qual o poderá identificar como nosso Verdadeiro Irmão Branco.

"O Quarto Mundo deve terminar em breve, e o Quinto Mundo terá início. Isto todos os anciãos em toda a parte sabem. Os Sinais ao longo de muitos anos estiveram sendo observados, e muito pouco resta por acontecer.

"Este é o Primeiro Sinal: Nós estivemos falando da chegada dos homens de pele branca, como Pahana, mas que não viviam como Pahana e que iam tomar a terra que não lhes pertencia. E homens que derrubavam seus inimigos com trovões.

"Este é o Segundo Sinal: Nossas terras veriam a chegada de rodas rolantes carregadas de sons. Em minha juventude, meu pai viu essa profecia tornar-se realidade com seus próprios olhos - os homens brancos trazendo suas famílias em carros que cruzavam as pradarias."

"Este é o Terceiro Sinal: Uma estranha besta como um búfalo mas com grandes chifres compridos, iriam atravessar o território em grande quantidade. Isto Pena Branca viu com seus olhos - a chegada do gado do homem branco."

"Este é o Quarto Sinal: O território seria cruzado por serpentes de ferro."

"Este é o Quinto Sinal: O território deveria ser entrecruzado por uma gigantesca teia de aranha."

"Este é o Sexto Sinal: O território deveria ser entrecruzado com rios de pedra que formariam figuras sob o calor do sol."

"Este é o Sétimo Sinal: Você sentiria o mar se tornando negro, e muitas das coisas existentes morrendo por causa disso."

"Este é o Oitavo Sinal: Você veria muitos jovens, que usariam cabelos longos como a gente de meu povo, vindo e congraçando com as nações das tribos, para aprender seus costumes e sabedoria.

"E este é o Nono e Último Sinal: Você ouvirá de uma morada nos céus, sobre a Terra, que deve cair com um grande estrondo. Vai parecer como se fosse uma estrela azul. Logo depois disso, as cerimônias de meu povo cessarão. .

"Estes são os sinais de que uma grande destruição está chegando. O mundo deve balançar pra frente e pra trás. O homem branco irá combater contra outro povo em outras terras - com aqueles que possuíram a luz primeira da sabedoria. Haverão muitas colunas de fumaça e fogo como as que Pena Branca viu o homem branco fazer nos desertos não muito longe daqui. Assim que estas acontecerem causarão doença e uma grande mortandade.

"Muitos do meu povo, compreendendo as profecias, devem se salvar. Aqueles que estejam presentes ou vivam nos lugares do meu povo também devem ser salvos. Daí deve haver muito por reconstruir. E cedo - logo em seguida - Pahana regressará. Ele deve trazer consigo a aurora do Quinto Mundo. Ele deve plantar as sementes de sua sabedoria em seus corações. Mesmo agora as sementes estão sendo plantadas. Elas devem abrir caminho para o despertar no Quinto Mundo.

"Mas Pena Branca não verá isto. Estou velho e morrendo. Você - talvez o veja. A seu tempo, a seu tempo..."

O velho Índio caiu em silêncio. Eles chegaram a seu destino, e o Reverendo David Young parou para deixá-lo sair de seu carro. Eles nunca se encontraram novamente. O Reverendo Young faleceu em 1976, de modo que não viveu para ver o prolongamento de sua importante profecia."

Leia o texto completo e conheça a Rocha da Profecia em Crystalink. Saiba mais sobre os Kachinas, espíritos tutelares das nações zuni e hopi, em um artigo de Ardeth Baxter.
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

OS LIVROS DOS QUAIS SOU FEITA.

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Não, apesar do título eu não sou uma bonequinha de papel reciclado nem um manequim ou escultura de papier-machè. Sou de carne e osso, não tenho dúvidas.
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Mas a minha alma, meu ego, meu self, meu psiquismo, minha mônada (ou seja lá como queiram chamar a contraparte do meu eu físico, aquilo que em mim realmente importa), esta sim, foi construída ao longo da minha vida com os blocos dos ensinamentos dos meus pais e da educação formal, com a ferragem das experiências pessoais e a argamassa da idéias que conheci ao ler livros, muitos livros.
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Um dos que mais me tocou, na época em que o li pela primeira vez, foi “O PROFETA” de Gibran Khalil Gibran. Lá eu encontrei, expressas em palavras claras e muito bem alinhavadas, idéias profundas e belas, poeticamente apresentadas aos olhos dos leitores, quase que respostas aos meus questionamentos pessoais na época. Ler este livro me levou a muitos vôos reflexivos, me proporcionou muitas horas de meditação a respeito dos temas apresentados e inúmeros momentos de conversas agradáveis com amigos.
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E assim, por ter visto neste livro beleza, utilidade e verdade, desejo partilhar com vocês dois pequenos capítulos, onde são abordados dois temas da nossa vida cotidiana, o conhecimento de si próprio e o ensino.
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Mas não se atenham a estes trechinhos, sugiro que vocês leiam o livro todo algum dia, pois tenho certeza de que vocês irão apreciar muitíssimo cada um dos seus capítulos. Vamos lá:
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“E um homem disse: -"Fala-nos do conhecimento de si próprio."
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E ele respondeu, dizendo:
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-"Vosso coração conhece em silêncio os segredos dos dias e das noites; mas vossos ouvidos anseiam por ouvir o que vosso coração sabe, desejais conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento. Quereis tocar com os dedos o corpo nu de vossos sonhos. E é bom que o desejeis.
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A nascente secreta de vossa alma precisa brotar e correr, murmurando para o mar, e o tesouro de vossas profundezas ilimitadas precisa revelar-se a vossos olhos. Mas não useis balanças para pesar vossos tesouros desconhecidos e não procureis explorar as profundidades de vosso conhecimento com uma vara ou uma sonda, porque o Eu é um mar sem limites e sem medidas.
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Não digais: 'encontrei a verdade.' Dizei de preferência 'Encontrei uma verdade.'
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Não digais: 'Encontrei o caminho da alma.' Dizei de preferência: 'Encontrei a alma andando em meu caminho.' Porque a alma anda por todos os caminhos. A alma não marcha em linha reta nem cresce como um junco. A alma desabrocha, qual um lótus de inúmeras pétalas".
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Então, um professor disse: "Fala-nos do ensino."
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E ele respondeu, dizendo:
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-"Homem algum poderá revelar-vos senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento. O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não dá de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura.
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Se ele for verdadeiramente sábio, não vos convidará a entrar na mansão de seu saber, mas vos conduzirá antes ao limiar de vossa própria mente.
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O astrônomo poderá falar-vos de sua compreensão do espaço, mas não vos poderá dar a sua compreensão. O músico poderá cantar para vós o ritmo que existe em todo o universo, mas não vos poderá dar o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a repete. E o versado na ciência dos números poderá falar-vos do mundo dos pesos e das medidas, mas não vos poderá levar até lá.
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Porque a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem. E assim como cada um de vós se mantém isolado na consciência de Deus, assim cada um deve ter sua própria compreensão de Deus e sua própria interpretação das coisas da terra."
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E assim, termino a coluna de hoje com um pensamento do meu também amado Nietzsche (é gente, Fernando Pessoa divide seu trono de predileto no meu coração com alguns outros autores que também admiro bastante!), um filósofo que através das suas idéias também faz, e em alto grau, parte daquilo que eu sou hoje.
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Este pensamento me é caro, porque muitas vezes fui considerada “insana” pelos surdos de plantão, por aqueles que só ouvem aquilo que as grandes massas proclamam repetidamente, fechando seus ouvidos ao novo, ao ousado, ao original e necessário (tudo aquilo que me move).
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"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não conseguiam escutar a música". (Friedrich Nietzsche)
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PEQUENOS FATOS INFERNAIS.

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Se não me engano, foi Jean Paul Sartre quem disse : -“O inferno são os outros”.
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Uau, que frase esta! De difícil interpretação e sentido amplo, ela com certeza gera uma margem que permite a alguns considerarem-na enfática e negativa, e outros, correta e oportuna.
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Vejamos: quando os outros são fonte de compreensão, amizade, ética, fraternidade, acolhimento e amor, na verdade são parte do Paraíso. Meu paraíso particular é assim: tem dias claros, muitas bibliotecas, espaços limpos e amplos cheios de amigos inteligentes, bondosos e compreensivos, com os quais eu posso conversar por horas e horas, exercitando minhas habilidades de reflexão e convívio fraternal. Tem também um silêncio onipresente, quase sagrado, que é ocasionalmente entrecortado por melodias suaves e harmônicas, do tipo que faz bem à alma. Na verdade, eu encontro esse paraíso na Terra em raríssimas ocasiões. Em ocasiões especialíssimas, diga-se de passagem.
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Muito mais comum e corriqueiro do que isto, porém, é eu me ver envolvida em situações que me remetem ao arquetípico inferno, lugarzinho onde habitam as mentes mais incautas e que já foi, exaustiva e diversamente, descrito por inúmeras religiões e obras literárias como a “Divina Comédia”, de Dante.
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Relaciono a seguir, para sua apreciação e diversão, alguns instantâneos deste meu inferno particular, o qual salta à vista sempre que me pego praticando aquele tipo de olhar que realmente vê e percebe o que ocorre ao meu redor.
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Quer coisa mais infernal, mais insuportável do que você estar preso no trânsito lento, num dia destes de calor insuportável e ter, ao seu lado, um carro dirigido por aqueles camaradas fortões, bombadões, de camisetinha regata colada ao corpo, um daqueles tristes Stalones tupiniquins, que toca num volume pantagruélico aquelas músicas paupérrimas e barulhentas, compostas para quem tem Q.I. de ostra?
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Ou estar numa fila qualquer (são tantas as que a gente enfrenta que fica bem fácil imaginar uma) e o sujeito de trás, sem noção alguma de limites, começar a falar alto ao celular sobre coisas íntimas da vida dele, que você não deve nem quer escutar?
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Ou ainda, se sentar para ver um filme no cinema e ter atrás de si um bando de gente que fica matraqueando sem parar, como se estivessem na casa deles, tornando o prazer de ver o filme uma tortura de autodisciplina (afinal, a gente bem que quer, mas não pode, encher as orelhas das criaturas barulhentas de palavrinhas desagradáveis, ou, se formos mais “fortinhos”, de uns bons cascudos!).
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É... e isso tudo acontecendo enquanto aquele camarada enorme chega abraçado com a namorada, atrasado para a sessão, e fica na sua frente, tampando as legendas, enquanto espera os olhos se acostumarem à escuridão para poder encontrar um lugar para se sentar. E isso, para logo depois, assim que ele se sentar, tornar a se levantar pra comprar pipoca, refrigerante e depois ficar novamente na sua frente, repetindo o ritual anterior.
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Tem também aquele momento em que você está na estrada, dirigindo contente com o vento no rosto, feliz e absorto, e o camarada do carro à frente de repente lança pelo vidro do carro uma latinha de refrigerante vazia que vem voando para cima do seu carro, obrigando-o a praticar manobras dignas de um ás do volante para não ser atingido. -“PORCO!”, é o que a gente grita por dentro (e às vezes para fora também!), mas não dá para fazer mais que isso... Ah, se desse, ah se desse!
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Tem mais algumas coisinhas que também me deixam mal, que talvez outras pessoas nem enxerguem. Por exemplo, toda vez que vou ao Carrefour e passo pela seção de rações (eu e meus eternos gatos!), fico desolada ao ver a seção de plantas morrendo, literalmente batendo as botas, por falta de água. Óh raios! Se os administradores da loja compram as plantas é porque pretendem vender; se pretendem vender, deveriam cuidar do seu patrimônio, senão pelo respeito que deveriam nutrir pela vida das plantas, ao menos para evitar o prejuízo certo de perder as plantas. Custa muito manter as plantas molhadas?
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Outra coisa que me leva às profundezas abissais é ouvir de uma mãe de aluno, à qual pedi para conversar com o filho de uns oito ou nove anos sobre o péssimo comportamento dele na sala de aulas a frase- “Ai, professora... eu não sei mais o que fazer com o fulaninho, ele não me obedece, já tentei de tudo mas ele faz o que quer...” . Socorro, gente. Pode isso?
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Se não dá para se dedicar a educar os filhos porque dá muito trabalho, porque então ter filhos para depois entregar sua responsabilidade pessoal nas mãos de um profissional que é apenas isso, p-r-o-f-i-s-s-i-o-n-a-l da Educação, e que não tem como função fazer papel de pai e mãe?
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Para terminar de ilustrar parcialmente as cenas do meu inferno particular, trago ao palco os guardadores de carros, aquele camaradas mais ou menos sinistros, que ficam de plantão em todo canto da cidade, onde quer que haja uma vaga disponível, para extorqui-lo como se fosse a coisa mais natural do mundo. –“E aí, dona, posso dar uma olhadinha?”. Pode. Pode sim, não custa nada olhar, mas me explique agora porque é que eu tenho que pagar para um estranho por estacionar dentro da cidade, que come meus preciosos reais em diversas parcelas de IPTU?
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Parem o mundo que eu quero descer... alguém sabe me informar quando é que sai a próxima astronave rumo “ao infinito e além”?
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CORAÇÃO DELATOR

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Recebi, dias atrás, um convite da amiga Conceição Molinaro para assistir a uma peça teatral montada pelos seus alunos terceiranistas do curso de Artes Cênicas da escola Fego Camargo. Adoro Teatro, lógico que não poderia deixar de ir... nem sequer perguntei pelo nome da peça e já aceitei! Cheguei em cima da hora, coisa que não é do eu feitio e que me desagrada fazer, mas que naquele dia não deu para evitar.

Talvez como um tipo de castigo pela minha indisciplina temporal, cheguei e me sentei na última cadeira disponível, no cantinho da terceira fileira. Tudo bem, já que palco não havia, e sim uma pequena arena no centro do auditório onde o cenário simples se apresentava. Com certeza, teria boa visão dalí.

O som de um coração batendo se propagava pela sala e a iluminação, fosca e insuficiente, mal deixava entrever as peças do cenário: uma cama, uma janela, algumas cadeiras... cadeiras onde alguns personagens já aguardavam pelo início da peça, concentrados em seus papéis misteriosos.
De repente, sons reverberam no meio da penumbra... vozes confusas, risos de escárnio, movimentação errática dos personagens por toda a cena. Tinha início a peça, uma crua descrição de um crime praticado por um homem atormentado, perturbado, demente.

Nos primeiros minutos da peça já me vêm à memória alguns contos de Edgar Allan Poe... “O barril de amontilado”, “O corvo”, “Os dentes de Berenice”, “A queda da casa de Usher”... quase podia ler a assinatura de Poe nas sombrias imagens que pelo palco falavam, gritavam, se retorciam.

Pessoas mais próximas à cena, muito provavelmente desacostumadas a interagir com atores teatrais assim tão de perto, se encolhiam meio assustadas quando o texto ficava mais intenso e a ação mais enérgica. E devo admitir que o clima era mesmo meio atemorizador... a insanidade do personagem, maquiada exageradamente pela penumbra onipresente na montagem, realmente intimidava.

E assim, os minutos passaram muito rápidos e a peça chegou ao clímax, momento em que o assassino é delatado por si mesmo, pelo seu próprio desequilíbrio. Ao final da peça não foram cerraram cortinas porque não as havia, mas alguns auxiliares conduziram os presentes para a saída rapidamente. Eu fiquei dentro do salão, aguardando para pode parabenizar minha amiga pelo excelente trabalho realizado pelos seus alunos. Agradavelmente surpresa (minhas antenas estão polidas!), descobri conversando com os atores após o término da peça, que realmente o texto ali interpretado era uma adaptação de um conto de Edgar Allan Poe.

Fiquei mesmo impressionada com a capacidade que estes alunos tiveram de criar a atmosfera de uma forma tão convincente que foi capaz de trazer à minha memória o nome de Poe tão prontamente. Ainda mais porque descobri, pela própria professora Conceição, que eles foram totalmente responsáveis pela montagem, do texto à iluminação, passando pelo figurino, concepção dos personagens e tudo o mais.

Quero deixar ao fim desta coluna, senão mais e mais reflexões sobre os temas velhice, loucura e memórias (o espaço seria insuficiente!), os meus sinceros parabéns à equipe de alunos que tão brilhantemente soube criar um espetáculo assim original e minha felicitações à Conceição e à toda equipe da área de Artes Cênicas da escola Fego Camargo, por terem conseguido motivar estes jovens artistas a chegarem ao ponto que chegaram.

E a você, leitor amigo, deixo a sugestão de ir vê-los. Sei que eles irão apresentar a peça mais algumas noites, embora não saiba ao certo quando. Portanto, liguem para lá e se informem, vão lá prestigiar esses jovens talentos porque com toda certeza vocês irão gostar!
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O SOM DA NOITE.

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Outro dia resolvi sair à noite com uma amiga para beber uma cerveja, jogar conversa fora, falar dos sonhos e esperanças, das dúvidas e temores, das coisas divertidas e das que assustam. Nada demais, o de sempre: sair para tirar o pó da alma, quebrar a rotina, sentir-se viva!

Fomos a um barzinho charmoso, que sempre tem um som ao vivo muito bom e que, por quase nunca ser excessivamente alto (o que é a maldição destes lugares), acabou por me cativar. Falo do “Blues Brazil”, que fica ali pertinho da praça da Eletro.

O ambiente deste barzinho não difere muito do ambiente de qualquer outro: meia luz, mesas dispostas de forma a propiciar alguma privacidade aos casais que ali estão e jovens prestativos atendendo atenciosamente aos clientes. Porém, há um algo que faz, para mim, toda diferença: a música. Eles sempre têm música ao vivo de qualidade por lá e, nesta noite em particular, havia um pianista. Um pianista dos bons.

Ele era moreno e tinha bigodes fartos e intimidadores, porém sua face serena não parecia nada ameaçadora, deixando apenas aos bigodes a tarefa de impor respeito. Das suas mãos saiam maravilhas, era um algo quase mágico ver como seus dedos percorriam o teclado com facilidade e sensibilidade. Estimo em uns 50 anos sua idade, muito mais baseada no repertório amplo e bem construído, coisa de quem é maduro e experiente, do que em sua aparência, que se revelava atemporal.

É verdade que alguns dos presentes não estavam verdadeiramente “presentes”... muitos ali, envolvidos em seus mundos pessoais, mal escutavam as músicas que ele tocava tão bem. Eu já toquei na noite por muitos anos e sei bem como é isso: para cada dez presentes, há apenas um ou dois que percebem e curtem as músicas que interpretamos, mas esse poucos são suficientes para que nos sintamos percebidos, gratificados.
Ele não parecia se importar muito com isso (os anos de prática nos ajudam a relevar), pois seguia tocando música após música com seu estilo pessoal, cheio de nuances jazzísticas.

Para mim foi uma festa ouvi-lo: conheço todo o repertório dele e, por sorte, as músicas estavam no meu tom e eu cantarolava baixinho, de onde estava, praticamente todas elas. Bossas, músicas internacionais, grandes obras da MPB, tudo enfileiradinho para o meu prazer!

De vez em quando eu corria os olhos em volta e me espantava com a falta de atenção das pessoas... será que elas não pressentiam a qualidade da música? Será que não tinham também vontade de cantar baixinho, exercitando o lado mais sensível da alma? Ah, não importa, cada um desperta para o belo em seu devido tempo e sei não há pressa, pois este despertar é inevitável em algum momento da vida.

Fiquei ali bebericando ao lado da minha amiga, entremeando conversa com cantoria por umas duas horas ou mais. E ao sair não resisti, fui até lá para cumprimentá-lo pelo bom gosto (igual ao meu, o que me leva a crer que é verdade que “narciso acha feio o que não é espelho”) e registrar que seu trabalho fez a minha noite mais bela, muito mais agradável e, com certeza, me fará voltar lá mais vezes ao lado de amigos para simplesmente curtir aquele som limpo, bem construído, carregado de expressão, que ele cria com tanta facilidade.

Fica a sugestão: reúna alguns amigos e vá até lá uma noite destas para ouvi-lo tocar (mas não se esqueça de contar para mim depois como foi sua experiência, ok?)

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