quarta-feira, 23 de setembro de 2009

MUDAM AS MOSCAS, MAS A CACA...

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Neste feriado de sete de Setembro fui para o sul Minas Gerais encontrar alguns amigos muito especiais para trocar idéias e revitalizar a mente, abrir a percepção e derrubar antigos conceitos falidos, discutindo assuntos incomuns e urgentes para nós. E algumas das nossas discussões, talvez as mais acaloradas, cutucaram aquele meu ladinho mais chato, mais “crica”, aquele meu lado que olha meio impiedosamente para os fatos da vida. E assim, eis que me peguei pensando na jornada humana, traçada a ferro, fogo, suor e lágrimas ao longo da história planetária.

Vejam só: há quinze mil anos éramos modernos caçando, com lanças de pontas de pedra afiada, a carne para nossas mesas, nos sentindo digníssimos exemplares masculinos, plenos de coragem e virilidade; há aproximadamente oito mil anos éramos moderníssimos ao caçar e guerrear com lanças e espadas de metal, nos sentindo digníssimos exemplares masculinos, plenos de coragem e virilidade; há cerca de mil anos, nos tornamos atualíssimos ao descobrir a pólvora e ao aprendermos a matar à distância, sem precisar sujar as mãos com o sangue da caça ou do inimigo, nos sentindo digníssimos exemplares masculinos, plenos de coragem e virilidade. Hoje disparamos bombas (atômicas ou não), canhões, metralhadoras, fuzis, gases tóxicos e outras armas poderosas no planeta inteiro a cada segundo, nos sentindo digníssimos exemplares masculinos, plenos de coragem e virilidade.

Na verdade, tudo o que sempre fizemos foi sobreviver belicosamente, provando masculinidade (para conquistar a fêmea), subjugando o inimigo que nos colocava em risco, numa busca desesperada de poder, de dominação, de reconhecimento e aceitação.

Há mais de seis mil anos descobríamos a joalheria e nos enfeitávamos com milhares de penduricalhos variados, nos sentindo as rainhas da beleza e da sedução; há mais de quatro mil anos atrás descobríamos a maquiagem e os óleos embelezadores, nos pintando, nos embelezando e nos sentindo as rainhas absolutas da beleza e da sedução; nos tempos do Rococó descobríamos os saltos altos, as perucas e os espartilhos, nos sentindo as rainhas absolutas da beleza e da sedução; nos anos 60 do século XX desestruturamos as formas e queimamos sutiãs nas ruas, nos sentindo as rainhas absolutas da beleza e da sedução; atualmente, maldizemos a natureza que nos constitui e zombamos dela furando, cortando, costurando e mutilando nossos corpos para diminuir isso, aumentar aquilo, imobilizar um músculo, esticar aquilo outro ou extirpar um pedaço aqui e outro ali, nos sentindo as rainhas absolutas da beleza e da sedução.

Na verdade, tudo o que fizemos ao longo dos milênios, foi nos sujeitar a todo tipo de modismo e imposição estética para sermos desejadas e consumidas pelos homens, numa busca desesperada de poder, de reconhecimento e aceitação.

Não me parece, olhando assim meio de relance, que a jornada empreendida pela humanidade dos tempos pré-históricos aos dias de hoje, tenha sido coroada por algum êxito maior do que a mera sobrevivência. Antes que você esbraveje demais já vou avisando que eu concordo - uma sobrevivência permeada por ocasionais conquistas tecnológicas agradáveis, por certo, mas que apenas geraram novas formas de conseguir as mesmas coisas de sempre. Afinal, é claro que é melhor caçar mulheres com um BMW reluzente do que com um porrete de madeira e é muito mais agradável seduzir um homem com implantes de silicone nos seios do que cozinhando ou parindo filhos.

Mudam as moscas, mas a caca continua a mesma.

Acorrentados às tendências e necessidades humanas atávicas, nós seguimos através das eras como robôs, criando formas diferenciadas de produzir resultados cada vez mais sofisticados para atendermos às mesmas necessidades ancestrais de dominação, sedução, conquista, posse ou destruição.

Exceção feita aos verdadeiros artistas, seres especiais que seguem uma trilha paralela e escrevem uma história um pouco diferente a partir de códigos próprios, nós apenas repetimos padrões, hipocritamente mascarando estas repetições com rótulos de novidade, talvez para não ficarmos chocados com nossa falta de originalidade. Na verdade, temos andado em círculos ao buscar as mesmas coisas de sempre (o poder, o reconhecimento e a aceitação) da mesma forma de sempre: através da violência, da sedução, com egoísmo e força bruta, sem solidariedade nem consciência em relação à vida que fora de nós habita. Se você não me acredita, apenas leia atentamente todo este jornal que você tem em mãos e assista a todos os noticiários da TV de hoje.

Para não deixar um gostinho amargo ao final desta pequena coluna, registro que quero muito crer que as coisas poderão um dia mudar e que a consciência humana ainda poderá atingir a maioridade, liberando-se destes condicionamentos ancestrais tão pobres, limitadores e tristonhos, transcendendo o ego a ponto de realmente evoluir na direção de uma redenção humana e planetária. Vamos todos torcer por isto?
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sexta-feira, 31 de julho de 2009

AOS MEUS AMIGOS NO MEU ANIVERSÁRIO.

Caros amigos...


Hoje, 31 de Julho de 2009, estou completando cinquenta anos de idade.

Nossa, meio século! Eu quase não acredito, meu coração estacionou lá pelos vinte e não consegue crer que já chegamos aqui.

E chego aos cinquenta feliz, inteira, de bem com a vida. É, de bem com a vida, mas não porque ela me dê tudo o que desejo e penso merecer, e sim porque estou aprendendo a aceitar as coisas como elas são, sem me arrebentar por causa disto.

Chego aos cinquenta com o mesmo olhar estatelado que tinha quando criança. E chego olhando, de dentro da minha mente, a vida que acontece lá fora como quem olha um picadeiro a partir da arquibancada. Ocasionalmente eu me viro e vejo ao meu lado pessoas que me encaram como se eu fosse o palhaço do picadeiro... mas tudo bem, isso deve fazer parte do processo de vida delas, onde eu deixo de ser platéia para ser a artista..

Há fios brancos no meio dos meus cabelos, mas persisto na mania de tingi-los e assim eles praticamente não são notados. Eles já foram castanhos, louros, já tiveram luzes, já foram crespos ou alisados. Longos, curtos, arrepiados, domados, picotados, masculinos... experimentei de quase tudo em termos de cabelo e sigo encantada vida afora com o fato de que eles sempre crescem e me dão a oportunidade de reparar algumas solenes cagadas estéticas, sempre cometidas em nome da vontade de mudar.

Mudar o que, mudar para quê? Sei lá, só sei que é imprescindível para mim mudar, nem que seja a marca do xampú. Sem mudanças a vida parece começar a perder a cor, começar a cheirar mal. Água estagnada, sabe como é? Parece que tudo começa a criar um depósito de sujeira no fundo, começa a incomodar...e aí a gente tem que agitar, renovar, filtrar, fazer um algo qualquer que possa mudar o status quo. E este mudar pode significar apenas um singelo tosar de madeixas ou, o que no meu caso já ocorreu muito, descartar tudo aquilo que se é num determinado lugar para partir para outra num lugar novo, começando do zero com a cara e a coragem.

Não é muito simples fazer, assim de bate-pronto, um balanço de cinquenta anos de vida, ainda mais quando se é um ser tão complexo quanto eu. Nada é muito simples na minha vida e às vezes tenho a impressão que meus dias todos caminham na contra-mão dos dias ditos "normais". Tudo o que é simples na vida dos outros na minha acaba por tomar proporções épicas. Saibam que não é nada fácil ser eu!

Mas por mais incomum, incômoda, estranha, original e atrapalhada que eu possa ser ou parecer às vezes, eu afirmo que tenho um pézinho careta bem plantado no solo da normalidade. Cultivei flores, plantei árvores, tive filhos de formas variadas (próprios ou importados) e escrevi, senão livros, muitas e muitas poesias e crônicas que hoje voam por aí, independentes de mim. Chorei a morte dos meus queridos pais, fiz amigos, inimigos, me casei, me separei, me casei novamente, tornei a me separar (com dois homens de sobrenomes idênticos e de profissões iguais, diga-se de passagem, tipo da coisa que só acontece comigo), namorei, desisti de namorar, abracei o celibato (se vai durar eu não sei, mas estou amando!).

Deixei ao longo da minha vida amigos queridos perdidos no tempo, assim como provavelmente não serei lembrada com muito prazer em alguns outros ambientes. Bocuda demais, sempre disse em bom tom e com sinceridade excessiva aquilo que pensava, coisa para a qual a maioria dos seres não está preparada. Se isso me rendeu algumas antipatias, é verdade que também cativou pessoas afins e me proporcionou um sono bom e tranquilo. Não sei mentir, sempre digo a verdade. No nosso mundo isto é um defeito, por certo... mas ninguém é perfeito!

Houve momentos em que me afastei demais do caminho da minha alma, seguindo momentaneamente pelas as trilhas seguras que outros já palmilharam, sem reparar que minha essência é a do lobo que segue ao largo dos pastores e dos rebanhos, abrindo por si mesmo seus caminhos às custas de muita determinação, coragem e desassombro. Nestes momentos me perdi de mim mesma a ponto de não reconhecer mais minha própria imagem, a ponto de me tornar mero borrão existencial.

São cinquenta anos de idade e ainda não sei muito bem o que faço aqui, nem descobri respostas para a maioria das questões mais cruciais que habitam minha mente. Mas pressinto que vou indo bem no sentido de encontrá-las.

Se é que isso serve para alguma coisa, posso dizer que embora nem sempre eu saiba muito exatamente o que quero da vida, hoje em dia eu ao menos sei bem o que eu não quero. E eu não quero sentir raiva nem ódio de algo ou de alguém, não quero solidao, não quero acordar para apenas sobreviver a mais um dia... quero significado para as horas, quero prazer para os minutos Também não quero incompreensão, dias sem beleza, sorrisos falsos e amizades oportunistas; quero apenas a simplicidade das conversas bobas sem hora para acabar, os sorrisos da alma, os toques do coração. Quero a comida feita pra partilhar, a canção cantada a muitas vozes, o olho olhando no olho, a mão pegando na mão.

Não quero dias mortos, quero celebração; não quero artificialismos, quero a coisa genuína. Não quero roupas caras nem ambientes sofisticados, quero só o aconchego da amizade e a sinceridade das dores e dos sonhos humanamente compartilhados.

Se eu morresse amanhã com certeza partiria sem dor, sem pena, sem a sensação de ter deixado para trás algo incompleto ou mal feito. Sei que fui sempre inteira no que resolvi fazer, que fui sincera nas minhas colocações e que fui ao limite das minhas curtas pernas. Nada teria a lamentar partindo hoje, muito menos a temer, pois ao aceitar minha falibilidade e minha pequenez humanas eu descobri que não posso tudo, e assim sei que o pouco que eu posso fazer eu sempre faço da melhor forma que consigo fazer. E então arrepender-me de que? Temer o que? Lamentar o que?

É isso... e agora você deve estar se perguntando porque foi que eu enviei este texto meio doido para você. Oras, é muito simples: você é em parte responsável por tudo aquilo que eu sou hoje. Em maior ou menor grau, para o bem ou para o mal (figura de linguagem, meu amor, pois bem e mal não existem, são apenas conceitos criados a partir do nosso pequeno ponto de vista) você me ajudou a crescer, a refletir, a sobreviver, a me tornar. Este "vir a ser " não seria o mesmo sem a sua presença nos meus dias e com certeza haveria um lacuna em mim sem a sua contribuição. Foram os nossos muitos "ontens" que possibilitaram este hoje que eu agora vivencio.

Voce deve ser aquele ou aquela que me ensinou a crer, ou a descrer... deve ter feito com que eu risse ou chorasse, deve ter me indicado um livro, um filme. Quem sabe você teria me dado uma receita de algo delicioso? Talvez você seja aquele tipo de amigo especial que ouviu minhas lamúrias chatas nos meus tempos mais confusos...ou um dos que compartilharam comigo aqueles três anos duros da minha fratura. Ou, quem sabe, foi um amigo da adolescência, da mocidade? Você pode ser aquele ou aquela que, ostentando o nome de filho ou filha, de irmão ou irmã, primo ou prima, veio para perto de mim para partilhar os dias com mais intimidade, com trocas mais intensas. Pode ser alguém que tocou e cantou comigo, dividindo entre sons momentos nos quais pudemos entrever o paraíso. Ou ainda você pode ter sido quem estava ao meu lado nos momentos em que uma bobeira qualquer acabou em risadas ou em alguma pequena calamidade.

Na verdade não me importa qual sua participação na minha vida, pois sei que de alguma forma ela foi preciosa.

E por isso eu lhe agradeço: MUITO OBRIGADA! Obrigada por estar ou ter estado ao meu lado, aturando amorosamente este todo incoerente (porém belo) que eu sou. Muito obrigada pela partilha, pelo aviso, pelo puxão de orelhas, pelo riso fácil, pela lágrima compartilhada, pelo livro emprestado, pela grana na hora mais difícil, pelo auxílio nos momentos críiticos, pelo presente de ontem, pelos sonhos de amanhã.

Muito obrigada por ser meu amigo!

Bjins.... com carinho demais da conta sô!

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terça-feira, 21 de julho de 2009

PRIMEIRO ENCONTRO COM A BELEZA.

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Noutro dia, para não variar, eu fui à cidade para resolver alguns daqueles probleminhas cotidianos que aborrecem a todos nós: pagar contas, comprar alguma coisa que falta em casa, ir aos correios e etc. Andava pela calçada meio apressada, em busca de economizar alguns minutos preciosos, quando os ouvi... e seus sons me alcançaram bem antes de os olhos poderem vê-los. Daí os ouvidos me cativaram e convenceram-me (sou muito fácil de ser convencida por sons!) a mudar de rota, guiando-me em direção à praça, quando o que eu queria mesmo era ir ao banco, situado um tanto ao lado.
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Cercados pela agitação popular, que sempre invade a praça no meio da tarde, é que eu os vejo: são três homens no palco ao ar livre e, embora eu não saiba ao certo se são peruanos, bolivianos ou equatorianos, tenho certeza que vieram dos Andes, pois os traços são inconfundíveis. Vieram de longe, com certeza, e vieram trazendo na bagagem aquela música inimitável, inigualável, aqueles sons envolventes e místicos que fazem a maior festa na minha alma.
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Vieram com flautas de todos os tipos: quenilla, quena, quenacho, samponhas de vários tamanhos diferentes, ocarinas e mais; a percussão, toda feita ali, ao vivo, na mão, contava com pequenos assobios de pássaro, com carrilhões de sininhos, chocalhos e outras coisas que mal conheço; tinham também um charango (pequeno instrumento de 10 cordas) e mais uma infinidade de fontes sonoras que, reunidas em execuções magistrais, conseguiram me transportar aos cumes de Machu Pichu num passe de mágica, como por encanto!
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Vestindo trajes nada tradicionais, pareciam-se mais com indígenas norte-americanos cheios de cocares do que com digníssimos descendentes dos Incas, o que provavelmente são. Imagino que se vistam assim porque, graças a Hollywood, os indígenas norte-americanos são reconhecíveis a milhas de distância e, como suas roupas chamam muito a atenção, a probabilidade de fazer sucesso é bem maior. Mera estratégia de marketing: quando são identificados rapidamente conseguem atrair mais atenção e, consequentemente vendem mais seus cds e produtos típicos!
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Não eram assim tão jovens: dois deles já exibiam muitos fios de cabelos brancos em meio às vastas cabeleiras, amarradas em disciplinados rabos de cavalo, mas se desdobravam, tocando apaixonadamente seus instrumentos, alternados constantemente para colorir e enriquecer as melodias com harmonias e sons interessantes... (falar mais sobre estes homens que vivem da sua arte, que encarnam seus sonhos sem submissão ao sistema alienado que nos cerca é um capítulo à parte, vou deixar para outra ocasião).
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Em meio às dezenas de pessoas que, das calçadas, olhavam admiradas o pequeno show vespertino, uma garotinha de uns dois anos se maravilhava com os sons, com as formas, com os movimentos no palco e não despregava os olhos um segundo sequer dos músicos à sua frente. Ela oscilava, muito bonitinha, para lá e para cá, ensaiando uns passinhos ritmados que pretendiam ser uma dança. Os olhinhos dela brilhavam e, de vez em quando, ela se virava para nós, que estávamos mais abaixo, como que para se certificar que todos estavam prestando atenção àquela coisa maravilhosa que ela via e ouvia, para ter certeza de que ninguém estava perdendo um segundo sequer de toda aquela beleza... (talvez ela tivesse, em algum cantinho do seu pequeno ser, a intuição da importância daquela música, das centenas de anos de cultura andina que se exibia ali, naquele espaço e naquele momento).
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Mas bonito mesmo era quando eles terminavam uma música e ela abria os bracinhos, alinhando as palmas das mãozinhas para aplaudir. Antes de bater a primeira palma, ela olhava para trás e via se alguém mais ia aplaudir e, assim que soava a primeira palma, ela desatava um aplauso sonoro e alegre, feliz e espontâneo, como deve sempre ser a festa da alma de uma criança diante de algo tão belo.
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Os músicos, muito bons por sinal, venderam muitos cds (eu comprei um, claro!), assim como flautas e objetos de decoração, todos lembranças que algumas pessoas carregarão para sempre em suas vidas. Mas aquela garotinha em especial, embora não tenha comprado nada, com certeza carregará para sempre dentro de si uma lembrança de maior valor: o dia em que ela festejou, sob um céu de puro azul e no meio da praça central, sua descoberta pessoal da beleza, da música, do encanto de que são capazes aqueles sons que viajaram centenas de anos e milhares de quilômetros para encontrá-la ali, tão pequenina, naquele exato momento da sua vida.

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quarta-feira, 17 de junho de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - por Eduardo Galeano

Oi gente!
Em minha coluna semanal no Diário de Taubaté eu sempre veiculo textos que, de alguma forma, têm ao menos um pézinho na internet. E é o caso deste excelente texto que transcrevo abaixo, texto que nos desperta a atenção para as verdadeiras motivações que definem nossos hábitos de consumo, que nos sacode do comodismo da repetição de fórmulas e escolhas no dia-a-dia, motivando-nos a pensar mais antes de comprar, de comer, de escolher onde gastar nosso suado dinheirinho.
Leiam com calma e com atenção, eu garanto que vale muito a pena.
Boa leitura!
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O IMPÉRIO DO CONSUMO
(por Eduardo Galeano)

A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe a conta, fica bêbado em dobro. A gandaia aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço.

Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar.
A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora. Mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas , termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.

Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é uma coisinha à-toa quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.

«Gente infeliz, essa que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevidéu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações».

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a «obesidade mórbida» aumentou quase 30% entre apopulação jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

A Copa do Mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão Mastercard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.

As filas na frente do McDonald´s de Moscou, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloqüência quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se em um restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.

Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.

Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar asmercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados. Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar asalfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?

O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não trás felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro trás algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio.

Enquanto o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam «porque as pessoas sentem gosto em juntar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?

O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos.
Os terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsulaespacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada à serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.

Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.

Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.
(Eduardo Galeano é autor do livro " Veias Abertas da America Latina").
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sábado, 9 de maio de 2009

FELICIDADE DE PAPEL, LINHA E ARROZ.

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(ao meu irmão Enio)

Elas sempre foram muitas e nos tempos de férias elas são ainda mais abundantes. Eu as vejo sempre coloridas, freneticamente voando de um lado para o outro, subindo aos pulos ou descendo e arrastando atrás de si muitos metros de cauda de papel filetado. São alegres e me remetem à infância, tempo em que eu presenciava meu irmão, cinco anos mais velho e artesão de primeira linha, produzir pernas de pau altíssimas (eu tinha medo quando ele as usava, pois ele me parecia monstruoso em cima daquilo), carrinhos de rolimã cheios de recursos (como freio e direção) e as famosas pipas.

Pipas, quadrados, arraias, maranhões, capuchetas. Os nomes eram muitos, mas o que importava mesmo é que elas eram bonitas, coloridas e meio mágicas: bastava colocar linha (linha dez, por favor, nunca nada mais fino!) e soltar “no vento”. E elas voavam, iam longe, aonde eu imaginava que eu mesma jamais poderia ir.

Uma das etapas mais elaboradas da produção de pipas era a fabricação do cerol. Com pedaços de garrafas quebradas era feito o vidro moído às marteladas, dentro de um pano de prato ou camiseta meio velha (para desespero da minha mãe). Ficava um pozinho muito fino, que ele misturava com cola de madeira (uma meleca feita através do derretimento de uma placa marrom, dura, de cola seca em água quente), uma coisa que fedia tremendamente e empestava a casa toda. De nada adiantavam os rogos de minha mãe para que ele fosse fazer aquilo “nos quintos”: era lá mesmo, em casa, que ele perpetrava suas criações.

Na montagem do esqueleto de madeira ele era mestre: suas obras pareciam sair das mãos de um engenheiro adolescente, pois elas quase nunca ficavam “pensas” nem “embicando” sozinhas. De vez em quando faltava cola para unir os papéis de seda coloridos (quanto mais recortes coloridos melhor, mais valiosa a pipa), e ele usava arroz cozido, vindo diretamente das panelas da minha mãe. Caso vocês não saibam, um grão de arroz cozido, esmagado entre dois pedaços de papel, age como uma cola bem razoável.

Se acontecesse de alguma das pipas ficar “fora de esquadro”, se houvesse algum desequilíbrio final, ele imediatamente o corrigia com uma imensa rabiola, feita segundo os mais rígidos padrões: no começo, o papel era amarrado à linha em espaços bem próximos, que iam se alargando mais e mais até o comprimento desejado. Esta era a única etapa do feitio em que eu era autorizada a ajudar, talvez porque fosse a menos interessante e a mais enfadonha, e eu agarrava a oportunidade com as duas mãos, cortando e amarrando freneticamente os papeizinhos ao longo dos muitos metros de linha (havia também uma carretilha para enrolar a linha, feita de lata de óleo e pedaços da madeira e arame como manivelas, uma verdadeira maravilha da engenharia de utilidades....mas isso fica para uma próxima crõnica).

Com a pipa pronta e em mãos, ele seguia para o campo de batalha como um soldado orgulhoso. Punha a pipa no ar e começava a procurar alguma vítima para capturar, atento aos inimigos que se aproximavam com suas linhas também cortantes. E a batalha começava, com investidas e recuos memoráveis, recheada de emoções. Quando alguém conseguia capturar uma pipa inimiga a cena era quase pungente: a criatura cativa, presa à linha de seu algoz, girava loucamente sobre si mesma e, sem outro recurso, acabava por descer até as mãos do seu captor, para ser novamente levada às alturas, em outra linha, pelas mãos de seu novo proprietário.

Eram lutas de vida e morte, onde o instinto primal de homens jovens era treinado, como numa idade da pedra moderna, de maneira socialmente aceita: sem sangue, sem embates corporais, sem violência física. A tocaia, a caça, a apropriação, a declaração de superioridade sobre outro homem, tudo vinha á tona soberbamente naquelas tardes mornas, embora nem tivéssemos consciência disso.

Não havia então (por vários e vários motivos, imagino eu) os acidentes que hoje vitimam os motociclistas, e raríssimas eram as ocasiões em que alguém se feria com o cerol. Tudo se resumia ao lúdico, ao aventureiro, ao treino das habilidades manuais. Tudo era apenas brincadeira, alegria, tentativa e erro, experiências para trocar depois em conversas intermináveis.

Naquele tempo a linha, as varetas, o papel e a cola de arroz eram símbolos de felicidade e nós nem sabíamos disso.
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SOBRE MENINAS E CANÇÕES

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(dedicada ao coral Mensageiro da Amizade)

Hoje é quarta-feira, dia de escrever a coluna para o jornal de amanhã. Estou tremendamente resfriada (os olhos lacrimejam, o nariz arde, o ouvido e a garganta doem) e isso não me parece um bom ponto de partida para escrever, já que geralmente fico mal-humorada, chata e pessimista quando gripada. Porém, como esta coluna é um algo que eu desejo que seja um ponto positivo no dia dos leitores, trato de botar um cabresto na mente indisciplinada, trancafiando no porão da alma a rabugice e o mau-humor. E me ponho a tentar visualizar as coisas boas da minha vida, aquelas mais legaizinhas e amenas, as que fazem meus dias valerem a pena.

E então me recordo do ensaio do coral de ontem, quando mais uma vez estive com minhas meninas maravilhosas para ensaiar músicas variadas para a missa do dia das mães. Sim, eu dirijo um coral de vozes femininas. De vozes femininas por mera falta de quorum masculino, diga-se de passagem. Taí, esta é uma pergunta que se impõem (responda quem puder!): porque é que em todos os corais as vozes masculinas são escassas? Corais sofrem sempre de falta crônica de homens, isso é fato, e eu me pergunto se isso é devido à vergonha de cantar ou à falta de sensibilidade para o belo. Não sei, não sei... só sei que quem canta os males espanta, que quem canta reza duas vezes e que cantar mantém a alma alegre, o coração feliz e a mente jovem. Pobres homens, nem sabem o que estão perdendo!

Mas deixem-me falar um pouco das minhas meninas: elas vêm de vários cantos da cidade para compartilharem com amor um canto em comum, são muito dedicadas, ensaiando com afinco, sempre atentas às minhas indicações, dando o melhor de si em cada nota e em cada frase musical. Das modas de viola às musicas em latim, elas seguem persistentes e alegres, saltando os obstáculos, superando as dificuldades e fazendo com carinho o trabalho paciente de construir, com os sons de suas vozes, as tramas do tecido musical que irá alegrar e sensibilizar os ouvidos de quem as prestigiar com sua presença.

Como todas as meninas, elas têm obrigações caseiras: cuidam dos parentes, fazem o serviço de casa, fazem compras e mantém a vida andando, sempre nos trilhos. De vez em quando alguma delas falta ou se atrasa, vindo logo pedir desculpas (como se isso fosse necessário, como se eu não soubesse que viver é imprevisível, que a vida nos brinda todos os dias com o bom e o mau, com o fácil e o difícil, com a alegria e com a tristeza). Não, queridas meninas, não é necessário explicar nem justificar: eu sei que todas cantam por amor. E também sei que o que se faz por amor a gente só deixa de fazer quando é absolutamente inevitável, certo?

Elas também são vaidosas, como convém a uma menina: aparecem de vez em quando de chapéu, de lencinhos aqui e ali, de saias e blusas bonitas, baton vermelho ou cor-de-rosa e cabelos sempre arrumadinhos. Roupas coloridas, tudo sempre combinando.

O que mais encanta nelas é que a alegria que elas ostentam em nossos encontros é perene, resistente, pois apesar dos percalços da vida nenhuma delas é amarga ou triste, cinzenta: não, são leves como plumas, são simpáticas e acolhedoras. E olhem que isso não é nada fácil para quem já viveu o que elas viveram: criaram filhos, netos, talvez bisnetos. Já perderam os pais há anos, perderam irmãos, maridos, algumas perderam filhos. Passaram pelas perdas que a vida impõe a todos nós, mas não perderam o que havia de melhor em si: a vontade e a alegria de viver. E mais do que apenas viver: viver bem, produzindo beleza, amizade e alegria aos sessenta, setenta, oitenta ou noventa anos de idade.

Minhas meninas têm muitos nomes: Tereza, Orlanda, Maria, Darci, Aparecida, Dione, Clarinda, Francisca, Nair, Irene... são muitas meninas e muitos nomes, não dá para colocar todos aqui. E esses nomes, se tudo correr bem, serão ainda mais numerosos no futuro.

Meninas queridas, a vocês eu deixo meu abraço mais amoroso. E a você, leitor, eu desejo a sorte de um dia poder encontrá-las num palco qualquer, de poder ter a oportunidade de partilhar com essas meninas especiais um pouco da beleza que elas são capazes de produzir.
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NAMASTÊ

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Hoje cedo eu acordei indisposta, com náuseas, suando frio. Coisa simples de entender: há dois dias meus filhos estavam com virose e eu, que os atendi e tratei, provavelmente me contaminei e acabei por apresentar os sintomas. Nada sério, na verdade, mas o fato acabou por me impedir de ir à escola lecionar, me levando também ao médico.

E nas quase duas horas em que aguardei pelo atendimento, muito gentil por sinal, visto que eu não previ que adoeceria e, portanto, não tinha consulta marcada (obrigada mais uma vez, Dr. Paulo Pereira!) pude constatar que sala de espera é tudo de bom para quem gosta de observar a vida e as pessoas, não para criticar ou julgar, apenas para reconhecê-las semelhantes, humanas, iguais.

Deixando de lado as revistas da mesinha, passei a olhar ao redor, absorvendo com os olhos a essência daquelas pessoas estranhas que me cercavam no momento. Uma moça bem vestida e apressada chegou, entregou uns papéis à recepcionista, ficou cinco minutos aguardando e acabou por pedir à atendente que telefonasse quando estivesse perto do nome dela ser chamado, pois ela tinha muito a fazer. E foi-se embora, retornando apenas quando eu já estava saindo.

Outra senhora, sentando-se ao meu lado, perguntou-me meio insegura se eu conhecia o profissional com o qual ela iria se consultar. Eu lhe disse que sim, tecendo bons comentários a respeito dele para tranquiza-la (nada além da verdade, diga-se de passagem).

Uma jovem mãe, também à espera da sua consulta, fazia prodígios para entreter a filhinha de um ano e meio, ávida por alguma brincadeira ou distração que pudesse alegrá-la, uma coisa difícil de encontrar naquele ambiente tão limpo, tão despojado e preparado apenas para adultos.

Um senhor já grisalho, impaciente, olhava o relógio de minuto em minuto, suspirando aliviado quando seu médico chegou, entrando apressado no consultório. Fiquei imaginando comigo mesma o que ele teria de tão importante a fazer a ponto de ficar tão agitado.

Outra mãe chegou, já no fim da tarde, conduzindo pela mão um garotinho de uns dez anos de idade, que aparentava sofrer de algum pequenino problema motor. Seu olhar e suas atitudes, pacientes e desveladas, sugeriam um amor pleno e incondicional ao filho, talvez fragilizado pelo aparente problema neurológico.

Enquanto tudo isso acontecia e as pessoas chegavam, iam embora, entravam ou saiam dos consultórios, as secretárias atendiam a todos sem perder a calma nem a concentração, agendando consultas e respondendo às dúvidas dos clientes com profissionalismo e correção.

Enfim, na tarde de hoje, o microcosmo humano daquela sala de espera, rico e variado, exibiu um breve panorama das emoções humanas, todas tão conhecidas por todos nós: o medo, a alegria, a ansiedade, o amor, a impaciência e outros tantos estados de espírito que apenas pude pressentir nesta breve observação.

Isso me leva à conclusão que, sem dúvida alguma, tudo aquilo que nos une e iguala, como seres humanos, é bem maior e mais válido do que aquilo o que nos separa. Ou seja: o desejo de ser feliz e de prosperar que a todos nós anima, os medos e receios que humanamente compartilhamos, a esperança que teimamos em manter viva e o amor de que somos capazes, são muito mais significativos como fatores de união e amor ao próximo do que as pequenas diferenças que ostentamos de credo, cor, raça, sexualidade ou de ideais o são como fatores de desarmonia, violência ou guerra.

Quisera eu que todos pudéssemos ver isso com a clareza necessária para abandonarmos de vez os julgamentos, a violência, a discriminação e a opressão, vendo no outro apenas um reflexo de nós mesmos. E assim me lembro que a saudação tradicional dos induístas e yogues, o “Namastê” tem exatamente este sentido, ao agregar em si a idéia: “O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em ti”.

Namastê a todos vocês.

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