sábado, 9 de maio de 2009

QUANTIDADE, VELOCIDADE E UMA OU OUTRA BARBARIDADE.

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Tenho saudades do tempo em que gente era gente: gente, pessoa, com olhos, boca, rosto, sentimentos e coração. Todos se conheciam pelos nomes, sabiam datas de aniversário e cultivavam o encontro com o outro como um algo precioso, uma oportunidade a compartilhar sempre que possível. Talvez fosse um tempo em que o rolo compressor da velocidade não atropelasse a todos e a tudo; um tempo no qual a quantidade de pessoas aglutinadas em torno de uma realidade qualquer não era tão grande. Talvez fosse um tempo em que havia menos pessoas em nossas vidas, mas as que haviam mereciam de nós toda consideração e afeto, mereciam mais atenção e respeito.


Eu me preocupo bastante e acho absurdos os índices atuais de crescimento demográfico (principalmente quando o planeta adoece gravemente, prometendo medidas regeneradoras cruéis em busca de seu reequilíbrio), mas entendo que a população cresça a níveis alarmantes todos os anos no mundo inteiro. Afinal, uns 90% das pessoas que decidem tornar-se pais ou mães nunca parou para pensar nas profundas implicações que cercam a manutenção digna de cada nova vida, na imensa responsabilidade que cada novo ser representa (ou ao menos deveria representar) para seus pais, para a sociedade e para o planeta. Eu, ao menos, tento compreender a necessidade emocional do casal que decide ter filhos “para vivenciar a maternidade e a paternidade”, como se ao novo ser que por aí vem fossem suficientes a curiosidade e o desejo meio egoísta desses dois para ter garantida uma vida decente e digna.


Mas não entendo a razão deste crescimento populacional não ser acompanhado por um desenvolvimento efetivo nos recursos materiais e humanos necessários ao suporte deste acúmulo de vidas. Não, o crescimento do entorno não prospera na medida em que crescem as populações: sempre há médicos faltando, escolas faltando, empregos faltando, espaço faltando, comida faltando, moradias faltando, ética faltando. Como diria o caipira (ainda há caipiras?): “-É, cumpadi... é uma vida de fartura: farta tudo”!


É verdade que existem áreas em que algo sobra, mas essa sobra, em geral, não me parece muito promissora. Sobra TV, falta cultura; sobram revistas de moda, fofocas ou novelas, falta boa literatura; sobra sexo, falta amor; sobra cerveja, falta convívio familiar; sobra futebol, festa e balada, falta compromisso com a realidade; sobram shopping centers, falta consumo consciente; sobra religião, falta integridade; sobram namorados e transas, falta afeto e respeito; sobram amizades instantâneas, faltam alma e coração nas relações pessoais; sobra assistencialismo por parte do governo, falta responsabilidade familiar em relação à educação e gestão dos próprios filhos.


Enquanto o planeta doente, já febril e superlotado, pede socorro, a população cresce desmedidamente e os governos fazem apenas nada para desestimular essa loucura. Ou os governos estão cegos ou apenas se acomodam, pois mexer com isso é por a mão em vespeiro, é um tipo de suicídio político. Aliás, aos que vivem salvaguardados pelo poder, o que importam as dores alheias?


E o Papa, num arroubo quixotesco, investe contra os moinhos de vento da carne na África, mantendo a proibição do uso da camisinha amparado por um discurso antigo, para mim extremamente discutível e ambíguo. Baseado em escrituras que, se tomadas ao pé da letra, sem reflexão e considerações mais aprofundadas podem parecer um tanto descabidas, ele proíbe aos africanos o uso dos preservativos, sem reconhecer que nascer ali já é quase uma sentença de morte cruel e dolorosa, não uma benção divina dos céus. Será que ele compreende que, com raríssimas exceções, nascer na África hoje é estar, desde a primeira respiração, condenado a morrer brutalmente? Diariamente, adultos e crianças morrem de fome, à míngua; outros, nas brutais disputas de poder, nas guerras civis; outros tantos de AIDS, que lá prolifera livremente. O resto do mundo se cala, ignora, faz de conta que não é com ele, mas a dor existe, o sofrimento é real e é cruel. Mas a proibição da camisinha, última barreira contra a disseminação da AIDS, só irá melhorar este quadro, certo?


Porém, a esperança permanece: em meio a tudo isso há ainda algumas pessoas que protestam. Protestam, perplexas com essa veloz impessoalidade, com essa coisificação do ser humano, gerada pelo número excessivo de vidas sobre o planeta. Vidas banalizadas exatamente pela sua quantidade grandiosa (quando se tem muito de uma coisa, ela acaba por ter seu valor diminuído). Pessoas protestam, como o meu querido Luiz Fernando Veríssimo a seguir:


“Nesta altura da vida já não sei mais quem sou. Vejam só que dilema: na ficha da loja sou CLIENTE; no restaurante FREGUÊS; quando alugo uma casa, INQUILINO; na condução, PASSAGEIRO; nos correios, REMETENTE; no supermercado, CONSUMIDOR. Para a Receita Federal, CONTRIBUINTE; se vendo algo importado, CONTRABANDISTA. Se revendo algo, sou MUAMBEIRO; se o carnê está com o prazo vencido, INADIMPLENTE; se não pago impostos, SONEGADOR. Para votar ELEITOR, mas em comícios, MASSA. Em viagens, TURISTA, na rua, caminhando, PEDESTRE; se sou atropelado, ACIDENTADO. No hospital, PACIENTE; nos jornais viro VÍTIMA. Se compro um livro, LEITOR; se ouço rádio, OUVINTE. Para o Ibope, ESPECTADOR; para apresentador de televisão, TELESPECTADOR; no campo de futebol, TORCEDOR. Se sou tricolor, SOFREDOR. Agora, já virei GALERA. (se trabalho na CHESF, sou COLABORADOR). E, quando morrer, uns dirão FINADO, outros DEFUNTO, para outros, EXTINTO, para o povão PRESUNTO. Em certos círculos espiritualistas serei DESENCARNADO; evangélicos dirão que fui ARREBATADO. E o pior de tudo é que para todo governante sou apenas um IMBECIL!!! E pensar que um dia já fui mais EU”.
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domingo, 1 de fevereiro de 2009

A BAILARINA E O HOMEM RIDÍCULO E VIL.



Ocasionalmente me pego prestando bastante atenção em crônicas, em poesias, nas letras das músicas que tocam no meu carro (são cds que seleciono com carinho, atenta apenas ao meu gosto pessoal). E, como não poderia deixar de ser, depois de ouvi-las, tento “ler nas entrelinhas” aquilo que não foi dito. Deixo aqui duas das minhas fontes de curtição e reflexão para vocês se deliciarem com elas e, quem sabe, pensarem sobre.

No primeiro, enquanto faz um rápido “mea culpa”, o autor (meu bem-amado Fernando Pessoa) discorre sobre a pretensa perfeição alheia em detrimento de sua parca, porém admitida, humanidade, enquanto que no segundo os autores (Chico Buarque e Edu Lobo, sempre maravilhosos) falam sobre uma perfeição inexistente, mas que nossos olhos enxergam, nas vidas alheias, em projeções que todos nós fazemos, inevitavelmente, em alguns momentos de nossas vidas.

POEMA EM LINHA RETA.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)


CIRANDA DA BAILARINA.

Procurando bem todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga e tem ameba só a bailarina é que não tem
E não tem coceira, verruga nem frieira, nem falta de maneira ela não tem...

Futucando bem todo mundo tem piolho ou tem cheiro de creolina
todo mundo tem um irmão meio zarolho só a bailarina é que não tem.
Nem unha encardida, nem dente com comida, nem casca de ferida ela não tem...

Não livra ninguém, todo mundo tem remela quando acorda as seis da matina
Teve escarlatina ou tem febre amarela só a bailarina é que não tem...
Medo de subir, gente, medo de cair, gente, medo de vertigem, quem não tem?

Confessando bem todo mundo faz pecado logo assim que a missa termina.
Todo mundo tem um primeiro namorado só a bailarina é que não tem.
Sujo atrás da orelha, bigode de groselha, calcinha um pouco velha ela não tem...

O padre também pode até ficar vermelho se o vento levanta a batina
Reparando bem todo mundo tem pentelho só a bailarina é que não tem...
Sala sem mobília, goteira na vasilha, problema na família quem não tem?

Procurando bem... todo mundo tem....

(Edu Lobo/ Chico Buarque)
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Era isso: nem super-heróis nem vilões, somos apenas humanos. Fico aqui torcendo para que todos nós ajustemos nossa visão e equilibremos nossos julgamentos, reconhecendo que somos muito menos vis do que tememos ser e que ninguém, mas ninguém mesmo, deixa de ter as características imperfeições humanas que possuímos e, que por sinal, nos irmanam e igualam diante da vida.


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A VIAGEM.



É Sábado e o relógio já marca 23h00min. Após oito horas de aulas na faculdade e outras tantas de espera, finalmente embarco e sento no banco do ônibus que deverá conduzir-me de volta à minha casa, distante 200 km. Estico as pernas e reclino o encosto do banco, preparando meu ambiente das próximas três horas e meia.

E é então que eu o vejo: ele deve ter uns trinta anos, aproximadamente 1.70m de altura, cabelos crespos de cor indefinida e pele parda (daquele tom mais indefinido ainda que, em minha opinião, deveria se chamar "pardus brasiliensis", visto ser a cor da esmagadora maioria de nós). É um tipo de homem comum, desses que vemos todos os minutos de todos os dias em qualquer lugar de qualquer rua.

Ele carrega uma mochila puída, que creio que um dia tenha sido preta. Sem jeito, ele pede licença com um leve sotaque nordestino e coloca a mochila no bagageiro sobre a minha cabeça, saindo apressado em busca de alguma coisa que deixou lá fora. Retorna em seguida com uma criança de uns dois anos nos braços seguido de perto por uma mulher tão parda e comum quanto ele, talvez alguns anos mais nova. Eles transpiram suor e ansiedade, talvez pela viagem, talvez pelas incertezas da vida, não sei bem ao certo.

Ele se senta ao meu lado depois de acomodar a mulher, a bagagem dela e a criança nos dois bancos ao lado dos nossos e começa a mexer nos bolsos, tirando deles algumas notas amarrotadas, que alisa e arruma em algum tipo de ordem que foge ao meu conhecimento. Depois de contar tudo com muito cuidado, torna a guardar o dinheiro no bolso da calça.

O ônibus começa a andar e ele pergunta algo à mulher do outro lado do corredor, em voz baixa. Ela responde também baixinho, e ajeita melhor a criança no banco, reclinando-a sobre seu colo para que durma mais confortavelmente.

Logo imagino: são marido e mulher e estão viajando com o filho para algum lugar, por alguma razão. Porém, eles não são em nada parecidos com as pessoas que viajam nesta linha, gente próspera que geralmente viaja por prazer, lazer, para aumentar a cultura ou as experiências da vida. Não, eles me parecem na verdade ter usado seus últimos tostões naquela viagem que os levará de Curitiba a São Paulo num percurso de mais de seis horas e quatrocentos quilômetros.

E me pergunto silenciosamente: eles vão em busca de que, movidos pelo que? Estão em busca de encontrar algo bom lá na outra cidade grande ou estarão buscando deixar algo inútil e doloroso para trás? Serão, como outros milhões de brasileiros, impelidos sempre em frente pela fome, pela esperança de dias melhores, pela busca da melhoria material ou estarão apenas voltando às suas origens distantes, vencidos pela dureza econômica, pelo descaso social e pela falta de amor e fraternidade que atinge indistintamente brancos e negros, velhos e jovens, religiosos e ateus?

No decorrer da viagem ele se levanta algumas vezes do seu banco e vai em socorro da mulher quando é necessário mover a criança sem acordá-la, com um carinho quase impossível de se prever em mãos tão grossas e aparentemente insensíveis. E eles agem em movimentos cadenciados, quase ensaiados, sussurrando entre si palavras quase inaudíveis, nas quais pressinto cumplicidade, parceria e sintonia, como se ambos pulsassem numa mesma velocidade e intensidade, em total e completa harmonia.

Toda a pobreza que vi estampada nas roupas e bagagens, denunciada também pelas poucas notas tão cuidadosamente ajeitadas no fundo dos bolsos rotos, de repente se esvai, evapora, deixando em seu lugar a sensação de uma riqueza inigualável, de um possuir um algo que não tem preço. No lugar da pobreza, salta aos olhos agora apenas uma realização humana admirável, a do encontro real, afetuoso e respeitoso entre dois seres humanos que, apesar dos tropeços e do peso da vida cotidiana, usualmente dura e injusta, conseguem reservar um espaço dentro de si para o amor e o carinho, para o cuidado mútuo, para uma parceria efetiva compartilhada com outro ser, carente de cuidados, recursos e amor, o filho.

E neste momento, subitamente, parecem-me fúteis minhas pequenas buscas intelectuais, de crescimento profissional, da satisfação do ego com aquisições materiais, do encontro perfeito que meu coração idealiza. Tudo isso de repente me parece esvaziado de valor, pois compreendo que por mais que eu atinja todos meus objetivos atuais nada terá valido a pena se eu não levar junto comigo meu coração, se eu me esquecer que sem o outro "eu" não sou, se me deixar levar pela idéia (ilusória e geral) de que ter as vontades satisfeitas é o único e certo caminho para a felicidade.

Eu nunca soube seus nomes nem endereços, nunca pude saber ao certo os motivos da sua viagem, mas sempre que me lembro da lição de amor e ternura que presenciei naquele ônibus envio a eles pensamentos de afeto e desejos de felicidades. Eles merecem!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

NATAL DE PAZ, NATAL DE LUZ, NATAL DE AMOR...

“Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.” (Mateus 25:34–36).
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É dia 11 de Dezembro de 2009, faltam apenas 14 dias para o Natal, data máxima da cristandade, uma festa de amor, paz e fraternidade.

São 22h00min e eu sigo de carro com minha filha procurando um endereço nas ruas próximas ao shopping center. Garoa, o tempo não está bom e, seguindo as instruções que um amigo me deu, aventuro-me a seguir um caminho que parte da frente da Ford em direção ao Jardim Aeroporto, a Avenida Charles Schneider. Ao terminar de fazer a primeira curva, minha filha fala:

-“Mãe, eu acho que tem uma pessoa jogada na pista, perto do canteiro... não deu para ver se é homem ou mulher, mas tem alguém deitado lá!”.

Retruco que não vi nada, que não percebi nada estranho no caminho, mas ela segue afirmando o que viu, assustada até. Sigo uns metros adiante, encontro um retorno e volto devagar, atenta a qualquer sinal de uma presença humana no asfalto molhado. E então eu vejo: um corpo caído do outro lado do canteiro central.

Paro o carro ao lado do canteiro, ligo o pisca-alerta, peço a ela que fique dentro do carro fechado e desço para olhar. E é verdade: lá está um homem de cerca de uns sessenta anos ou mais, caído em pose estranha, desacordado no asfalto. Verifico que ele respira, mas não me atrevo a tocá-lo (o lugar é ermo, a noite está escura, chove e prefiro esperar que alguém apareça para ajudar).

Imediatamente ligo para190, identifico-me e fico esperando pelo socorro, postada em frente ao corpo, desviando o trânsito para que ninguém corra o risco de atropelar o homem. Assim como eu não o vi de longe, as pessoas também podem não vê-lo, certo? Gesticulo então para cada carro que passa, pedindo-lhes que sigam pela outra pista, evitando um provável atropelamento. Todos que passam olham curiosos para fora do carro, tentando entender o que faz uma mulher no meio da pista às dez da noite, debaixo da garoa, gesticulando como um guarda de trânsito. Sim, todos olham, mas olham sem ver, pois ninguém para, se interessa ou oferece ajuda. Um motociclista mais jovem passa, para, volta e pergunta o que houve. Ao ouvir meu relato e a observação de que já chamei o resgate, segue seu caminho.

O homem acorda, se move e geme; eu pergunto o que houve, se ele está ferido. Ele balbucia coisas que eu não entendo e assim eu permaneço lá, por uns cinco minutos, pedindo a ele que não se levante, que tenha calma. Este é o tempo que leva para uma viatura da PM encostar, logo seguida pelo carro do resgate dos bombeiros. Eles me perguntam o que ocorreu e eu narro os fatos. Os paramédicos (muito grata pela presteza e profissionalismo de vocês!) examinam o homem, colocam-no na maca e se preparam para levá-lo ao hospital. Não fico para ver o final, estou com frio, molhada, abalada e quero ir para casa.

Vou embora pensando: ele é pobre sim, percebe-se pelas roupas gastas, pelo chinelo de dedos velho. Embora eu não tenha sentido cheiro de bebida, ele pode ter bebido e caído, comportamento execrável, certo? Mas não consigo me desvencilhar da idéia de que, seja lá o que for que tenha acontecido, ele é ou foi filho de alguém; ele deve ser pai de outros alguéns e, é quase certo, há pessoas em algum lugar da cidade que esperam por ele, que aguardam preocupadas pela sua volta (ou não, o que seria muito pior). E me lembro que o Natal se aproxima, que todos festejarão a data cristã do amor divino, e confraternizarão desejando paz, alegria e prosperidade aos seus conhecidos, absolutamente indiferentes aos desconhecidos.
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É dia 13 de Dezembro de 2009, faltam apenas doze dias para o Natal, data máxima da cristandade, uma festa de amor, paz e fraternidade.

São sete e meia da noite e eu sigo pela Rua Rafael Braga em busca da casa de um amigo que me acompanhará à festa de Tremembé. Ao fazer o retorno, já quase no fim da avenida, para subir a rua da casa deste amigo, vejo uma criança muito pequena encostada num muro, acocorada e encolhidinha, com cara de choro e absolutamente sozinha.

Passo, olho, paro, dou marcha à ré, estaciono ao lado da calçada e desço, com calma, para não assustá-lo. Ele está descalço, veste uma blusinha de soft (faz frio!) e chupa uma manga meio podre. Pergunto a ele sobre a mamãe e ele chora, misturando o caldo da manga, que não tira da boca, com suas lágrimas. Ele não responde, então pergunto se ele está com algum irmãozinho e ele apenas continua a chorar. É quase um bebê, não tem nem dois anos.

Continuo agachada ao lado dele, olhando em volta, buscando ansiosamente com o olhar alguém que possa estar ligado a ele. É quase noite e fico preocupada. E então vejo vir do fim da rua um garoto de uns oito ou nove anos, só de calção, segurando uma pipa. Ele chega e eu pergunto se ele está com o garotinho. Ele nega, diz que não, e me pergunta: -“Tia, porque você não “pega ele” pra você e leva pra sua casa?” Fico aborrecida e digo a ele que não é assim que as coisas funcionam. Quando digo que vou ligar para polícia vir recolher o garotinho, ele diz que é seu irmão e que está com ele. Duvido, peço a ele que confirme e ele, com naturalidade, diz que saiu pra ir buscar não sei o que, pedindo que o pequeno não saísse dali.

Quando começo a lhe “passar um pito” por ter deixado o garotinho sozinho às margens da movimentada avenida, correndo risco iminente de vida, chega um adolescente de uns quinze ou dezesseis anos, mais bem vestido que os dois, também segurando uma pipa. Ele diz que está com os dois e eu conto o que aconteceu. Ele ri bastante quando digo que o garoto maior me sugeriu levar o pequeno embora comigo, para minha casa. Não acho a menor graça e começo a falar da irresponsabilidade dos dois, já voltando para o carro. E então o garoto menor fala agressivamente, talvez se sentindo subitamente corajoso, amparado pela presença do maior -”Vai embora tia, pega seu carro e some... vai cuidar da sua vida”. E vem em direção ao carro, quando lhe digo que eu acho que ele não tem nem tamanho para saber do que está falando e que eu vou resolver de uma vez o problema da forma certa. Pego o celular e começo a ligar para a polícia. Ele se atemoriza, pega o menorzinho pelo braço e fala –“Ih, tia, a gente já ta indo, a gente já ta indo...” e sai junto com o maior, arrastando o pequenino ainda choroso pelo braço em direção ao fim da avenida. Respiro fundo, dou a partida e sigo meu caminho, com lágrimas incômodas ameaçando brotar dos olhos, tentando compreender (e aceitar, o que é quase impossível) que as coisas são assim.

Numa noite, há 2009 anos, Jesus nasceu pobre, numa manjedoura, mas ele tinha pai e mãe, ele dispunha de proteção e amor e recebeu a visita de Reis. Neste Natal, quantas crianças pequenas estarão chorando encolhidas junto a paredes, solitárias e atemorizadas pela brutalidade dos dias? E nós estaremos festejando junto aos nossos, alheios ao choro alheio e à dor que afligem alguns desvalidos da nossa sociedade. Dois mil e nove anos depois da vinda do Mestre ainda caminhamos errática e lentamente na direção de nos tornarmos seres amorosos, fraternos e verdadeiramente humanos em relação ao nosso próximo.
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“Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.” (Mateus 25:34–36).

A MESMA PRAÇA...

A MESMA PRAÇA...


Bom dia a todos!

Normalmente percorro as ruas do centro da cidade ao menos umas três vezes por mês e meus motivos são banais: as contas a pagar, os badulaques a comprar, os bancos a visitar. Rotina normal, todos nós fazemos isso e, verdade seja dita, nem sempre com muito prazer... depois de algum tempo os pés doem, o barulho irrita, o movimento intenso desgasta e tudo que queremos é ir embora, voltar para casa, deixar de lado o calor e o cansaço.
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Porém, adquiri um hábito que torna minhas pequenas peregrinações comerciais menos chatas, menos cansativas. Sempre que vou á cidade passo pela praça D. Epaminondas, prestando atenção ao que ali ocorre (olhando com os olhos da face e vendo com os olhos da alma), à vida que ali acontece pintada em cores vibrantes, passionais, a la Almodóvar, uma vida recheada de faces, corpos, sabores e sons dos mais variados.
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Já vi de tudo ali: crianças, vestidas de branco, tocando em doces flautas doces algumas cantigas de roda saudosas; meninas meio magricelas, vestidas com roupas brilhantes, tentando seduzir a multidão com uma dança do ventre bonitinha, mas ainda incipiente, decorada, sem espontaneidade (mas sei que isso virá a seu tempo, juntamente com as formas mais fartas e arredondadas que, no tempo propício, tornam o corpo feminino mais sedutor); um desenhista-retratista com seu cavalete, seus papéis, seus lápis e obras acabadas, ganhando a vida com arte e sensibilidade (aplaudo em pé: isso sim é ser fiel à sua alma, ao seu sentir... quantos de nós faríamos isso: viver como gostaríamos de verdade, deixando de lado as ambições desmedidas e os julgamentos alheios?)
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Num outro dia havia um senhor sentado ao pé de uma árvore, tocando simultaneamente uma gaita de boca e um chocalho, produzindo sons interessantes, ritmados, envolventes (em sua caixinha de papel eu deixei dois reais, visto que ele embelezou o meu dia com sua música incomum!); um duo tocando e cantando, sertanejamente, as paixões humanas, físicas, descrevendo suas desventuras amorosas em palavras como “pintei na parede um retrato dela, tatuei no braço o nome dela, guardei no peito a saudade dela...” ou algo assim.
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Já ouvi gente pregando, em alto e bom som, suas pequenas convicções e verdades pessoais aos presentes numa patética tentativa de arrebanhar adeptos novos; já presenciei cantores e cantoras entretendo a multidão com cantigas populares enquanto senhores de mais idade, provavelmente aposentados, discutem calorosamente seus pontos de vista enquanto olham de soslaio para as pernas das mulheres que passam de vestidos curtos.
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Nas Sextas-feiras e nos Sábados, floristas entram e saem da igreja da praça com imensos ramos de belas flores, deixando-nos a imaginar as belas decorações que os noivos providenciam para seus convidados.
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As feiras de artesanato, então, são uma verdadeira festa quando lá estão: crochê, patchwork, pintura em tecidos, bijuterias penduradas nas placas de madeira dos bichos-grilos, pecinhas de gesso ou madeira pintadas de forma divertida, doces caseiros, adesivos colantes e muito mais. Não sou muito (não muito!) consumista, mas já deixei meu suado dinheirinho lá por várias vezes. Sábado passado mesmo eu comprei uma lata para panetone pintada à mão (por isso mesmo mais valiosa) que pretendo dar de presente a uma amiga professora no Natal e comprei também um belo chapeuzinho lilás que pretendo usar nos dias quentes de verão para não queimar minha pele.
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(Cá entre nós, houve um dia em que nesta mesma praça eu até tomei uma lambada de uma sem-teto que tentei ajudar a passar menos frio no Inverno, mas isso é uma longa história que eu prometo contar em outra oportunidade, certo?).
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O que importa mesmo é que a praça é um microcosmo social, um mosaico colorido, mutável, divertido e deveras original a retratar a realidade do nosso povo. Ali a pobreza, a riqueza, o preto, o branco, o velho, o novo, a feiúra, a beleza, o correto, o duvidoso, o bom gosto e o brega se misturam com uma liberdade digna de nota. Há espaço para tudo e para todos e os fatos acontecem democraticamente, sem discriminação.
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E agora então, quando chega o tempo do Natal, a praça ganha algumas árvores decorativas originais, feitas de material reciclável, e recebe também uma carreta que estacionou por lá (com cadeira de Papai Noel, com o próprio e tudo o mais) a nos lembrar que as festas são chegadas e que o ano vai acabar. Chegou aquele tempo do ano que ainda desperta em alguns doces sentimentos de gratidão e reflexão, prometendo momentos de confraternização e alegria, mas que também trás a bordo um consumismo exagerado de bens e uma produção exacerbada de expectativas que nem sempre são realistas ou realizáveis.
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Mas vamos deixar para falar sobre Natal nas próximas semanas, ok? Hoje o importante mesmo é deixar aqui um convite: quando você for ao centro da cidade gaste um tempinho olhando, vendo, ouvindo e sentindo a vida que anima a praça. Compre um algo qualquer de um daqueles artistas, promova e elogie os trabalhos expostos, deixe uma moeda para o artista anônimo e humilde que alí oferece o que tem de melhor dentro de si, cante com os cantores e aplauda os músicos ou dançarinos... nada disso custa muito, só um tempinho de atenção. Seja você também uma pecinha colorida daquele mosaico tão rico, variado e bonito que retrata a vida da nossa gente.

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UM CASAL FELIZ

Bom dia a todos!

A vida é sempre surpreendente, não? Há dias em que pela manhã estamos nos sentindo vencedores, seres maravilhosos, plenos de sucesso. Daí então algo ruim acontece e nos leva a um estado de espírito negativo, escuro. Ou vice-versa: levantamo-nos com aquela sensação de que carregamos o peso do mundo nas costas e subitamente “póim!”: algo de bom acontece e a vida se nos mostra sorridente novamente.

Isso é comum a todos nós, mas pensando bem, me parece que o que nos faz realmente vencedores ou perdedores é a constância com a qual nos entregamos a construir nossos dias, a nossa regularidade em relação às nossas escolhas, nossa perseverança nos mesmos pontos de vista e a nossa entrega ao que fazemos. E penso que foi isto que este casal escolheu fazer: ser sempre fiel ao desejo de amar o outro dedicadamente. Boa leitura a todos.

UM CASAL FELIZ.


Ontem saí às ruas da cidade para buscar algo que não encontrei e que, admito, dificilmente encontrarei: uma forma de gelo dos tempos antigos, daquelas de alumínio, que tinham uma alavanca maneira para soltar os cubinhos de gelo sem esforço. Mais um item entre tantos outros que, sendo corriqueiro na infância, torna-se raridade nos dias práticos, desencantados e artificiais de hoje.

Não, não foi saudosismo exacerbado nem sessão nostalgia; o fato é que acabei de ler os resultados de algumas pesquisas científicas que mostram que a prática de aquecer ou congelar água em recipientes plásticos pode ocasionar a liberação de uma substância cancerígena (não me recordo agora do nome da danada!) na água e, consequentemente, pode nos adoecer seriamente.

Pois é, pra que dar sopa para o azar? E assim, munida das melhores intenções, entrei em umas seis ou sete lojas, todas localizadas próximas ao mercadão de Taubaté e “necas de pitibiriba”, eu não encontrei a tal forminha.

Se não encontrei o que buscava, verdade seja dita: encontrei um outro algo muito raro, interessante e bastante agradável de ver: encontrei um casal feliz, com uma história incomum e inspiradora, atrás do balcão de uma pequena loja (da qual eu também não recordo o nome).

Ocorre que entrei na loja e perguntei sobre a tal forminha, sendo informada que não havia a menor chance de encontrá-la onde quer que fosse dentro da cidade e então, já saindo, percebo que há uma infinidade de modelos de copos para liquidificadores expostos nas prateleiras. Bem, eu tenho um que está parado no armário há uns dois anos por falta de copo e aproveito a chance, perguntando ao lojista sobre o modelo tal da marca tal. E então o balconista, homem de seus cinqüenta e tantos anos, vira-se para a mulher, que aparenta uma idade semelhante e está do outro lado da loja, perguntando gentilmente:

-“Meu amor, você sabe se temos no nosso estoque um copo assim assado?”

E ela responde no mesmo tom de voz tranqüilo, sereno:

-“Espere um pouquinho, meu querido... eu já vou olhar lá nos fundos”.

Instantes depois ela volta, já com a peça nas mãos e diz:

-“Meu bem, eu encontrei... é o último deste modelo, precisamos repor o estoque”.

Ele retira o copo das mãos dela e agradece:

-“Obrigado, querida...”.

E eu fico ali, testemunha muda da ternura e do respeito que flui entre os dois. Observadora e curiosa como sempre, não resisto e pergunto:

-“Desculpem a curiosidade, mas há quanto tempo vocês são casados?”

E ele responde, sem rodeios nem reservas:

-“Atualmente estamos juntos há seis anos!”

-“Atualmente?”

-“Sim, porque nossa história é meio diferente das outras...”

E então começa a narrar as peripécias pelas quais passaram os dois. Namoraram quando jovens por alguns anos, mas por força das circunstâncias, acabaram por romper o relacionamento e acabaram se casando com outras pessoas. Passam-se mais de vinte anos e ambos, cada qual na sua cidade, divorcia-se de seu par e segue sua vida, como centenas de nós o fazemos costumeiramente.

E assim, num determinado momento, movida por aquele sonho indestrutível de ser e fazer feliz que toda mulher possui dentro de si, ela decide-se a fazer uma pesquisa, buscando pelo nome dele nas listas telefônicas e encontra um número. Ela liga, se reconhecem, falam dos anos passados e descobrem que ambos estão livres, disponíveis, e que nunca, jamais, esqueceram-se um do outro.

Desnecessário escrever aqui os detalhes do fim da história, não? Numa apoteose digna dos contos de fadas, eis que uma nova (e grande!) família surge no cenário: ele, suas quatro filhas, ela e suas duas filhas.

Não satisfeita com a narrativa espontânea e agradável, comento que o que me levou a perguntar sobre o casamento deles foi o respeito e o carinho que percebi na relação dos dói (algo incomum nos nossos dias apressados), expresso ali não em um ambiente de festa, de comemoração ou diversão, mas em plena luta diária, atrás de um balcão, onde ambos lutam pelo pão de cada dia, expostos a todo tipo de irritação e frustração, situações que todos enfrentamos no nosso dia-a-dia e que, costumeiramente, nos fazem ficar rabugentos e mal-humorados.

Ele esclarece: após terem passado por casamentos fracassados, ambos aprenderam que o que realmente faz a diferença numa relação não é a quantidade de dinheiro, a boa aparência ou um outro algo qualquer que não a amizade, o carinho, a dedicação e o respeito mútuo. Fala também do empenho consciente em tratar o outro bem, em fazer com que o outro se sinta especial o tempo todo.

Ao vê-los tão conscientes destes valores, tão dedicados à manutenção daquela relação duramente reconquistada, alegremente previ que este convívio compensador e saudável com certeza seguirá adiante, cheio de momentos felizes e de carinho por muito e muito tempo ainda.

Meu blog de papel.

MEU BLOG DE PAPEL.


Sou usuária da internet há muitos anos. Foram muitas as listas de discussões das quais participei, inúmeros os bons amigos virtuais que cultivei e várias as produções que postei na grande rede. Uma vida paralela à vida real infiltrou-se nos meus dias lentamente, a exigir tempo, dedicação, carinho e empenho (tenho por lema pessoal que se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito!). Uma vida imaterial, virtual, impalpável, mas nem por isso menos valiosa do que a vida física e real, esta que todos vivemos com os pés no chão, problemas na cabeça, amores no coração, filhos a criar e contas a pagar.

Viajei pelo mundo todo e conheci realidades outras em frente ao pequeno monitor do meu computador; estabeleci amizades inesperadas ao trocar idéias, descobrindo afinidades com pessoas de todas as partes deste e de outros países. Também ampliei meu pequeno e limitado mundo pessoal nestas andanças, aprendendo mais e mais sobre de tudo um pouco em minhas pesquisas e viagens virtuais, muitas vezes realizadas em noites insones.

Por muitas vezes ouvi críticas duras à grande rede, principalmente por conta da pornografia e de outras coisas ruins ou perigosas que podemos encontrar dentro dela, mas pensando com isenção de ânimo concluí que, como instrumento, ferramenta ou meio de comunicação, a internet é como tudo o mais na vida: nem boa nem má, ela apenas servirá fielmente aos anseios da mente que dela se utiliza, oferecendo aos seus usuários aquilo que eles buscam e que encontrariam, de qualquer forma, dentro ou fora da internet. Mais uma vez, o coração de cada um estará onde estiver também seu tesouro, certo?

E assim foi que criei e alimentei pacientemente alguns blogs (páginas pessoais onde podemos postar o que desejarmos) para veicular meus pensamentos que, sempre cheios de questionamentos, perplexidades e dúvidas, acreditei que encontrassem eco em outras mentes curiosas e reflexivas. E encontraram, visto o volume de correspondência que recebi ao longo destes anos. Escrevi crônicas, poesias, comentei notícias, intermediei discussões, postei minhas alegrias e tristezas e assim comuniquei-me com o mundo de uma maneira impensável até a alguns anos atrás, graças à tecnologia que hoje nos permite acessar todo o planeta a partir de um clique.

Mas, apesar desta imensa simpatia que nutro pela internet, desejo que fique registrado: nada tenho contra gente de verdade, contra o encontro físico, as palavras, os sorrisos, os abraços, os olhos nos olhos ou os livros de papel. Além de possuir inúmeros amigos de carne e osso, possuo uma vasta biblioteca pessoal e considero meus livros, cds e dvds como meu maior patrimônio (assim como também a maior causa dos rombos no cartão de crédito!) e penso que não há prazer maior para um leitor apaixonado pela leitura do que abrir uma revista, um jornal ou um livro novo, sentindo-lhe o cheiro da tinta e a textura das páginas, numa preparação para o prazer que se encontrará na viagem proporcionada pela história ali contida. Há, então, espaço suficiente no mundo de hoje para o real e para o virtual, concordam?

Equilibradamente, penso que sei separar as coisas, direcionando para cada uma destas realidades apenas a energia e o empenho necessários, dosando tudo com alguma sabedoria. A César o que é de César: se é verdade que a internet é um universo à parte, uma conquista moderna de valor incalculável, também o é que são as pessoas de carne e osso que a tornam possível e que é o contato humano real a base que cria, sustenta e realiza as nossas vidas, nas quais se insere a realidade internet.

Convidada a escrever esta coluna semanal aceitei com prazer, por acreditar que seria mesmo muito bom poder partilhar meus pensamentos com você, leitor do Diário de Taubaté. Mas peço-lhe desde agora um favor: não fique na expectativa de que eu vá brindá-lo com obras-primas da literatura ou com textos de grande brilhantismo e erudição a cada semana, pois eu mesma não cultivo esta vaidade. Almejo apenas ser a colunista que, informalmente e sem pretensões, lhe oferece num dia entretenimento, noutro um ponto de partida para novas reflexões ou ainda, quem sabe, desejo ser a amiga que você encontrará semanalmente aqui, nesta mesma bat-hora e neste mesmo bat-canal para falar da vida em seus múltiplos aspectos, por vezes de forma bem-humorada, por outras melancolicamente. Minha paixão pela Música e pelo Cinema transparecerá algumas vezes; minha indignação com as injustiças e com as incoerências ocasionais da sociedade também; meu apetite voraz pelo que há de espiritual nos dias, pelo aspecto mais transcendente da vida também colocará as manguinhas de fora vez ou outra... eis aqui um rápido “menu” do que virá pela frente.

Creio, porém, que há algo que eu posso afirmar sem chance de errar: a cada semana eu oferecerei a você, sincera e afetivamente, alguns olhares singulares e reflexivos sobre esta nossa vida cotidiana, sempre recheada de situações, pessoas e questões sociais que se renovam a cada minuto. E se há algo que me deixaria muito contente é saber que você pode entrar em contato comigo para comentar, criticar, trocar idéias, complementar ou apenas para dar sinal de vida e dizer o que lhe vai na mente. Para isso deixo aqui meu e-mail e meu convite para que você faça contato:
meublogdepapel@gmail.com

Seja bem-vindo! Puxe uma cadeira, fique à vontade e aceite um cafezinho... de agora em diante nós vamos mais mesmo é prosear!
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