quarta-feira, 24 de julho de 2013

UMA MORTE PATROCINADA PELO SISTEMA.

Eu penso que foi por volta de Julho de 2012 que eu o conheci. E foi através de uma postagem de desabafo feita por ele no facebook. Nesta postagem ele narrava o motivo de sua perplexidade, de sua revolta, algo mais ou menos assim...

Lutando contra o câncer há cerca de ano e meio, entre as intragáveis sessões de rádio e de quimioterapia, numa tarde fria de Julho, ele tomou coragem foi ao supermercado. Magro e careca (por isso bem agasalhado e com gorrinho de lã) foi atacado por policiais militares logo ao entrar no estacionamento. Sem nada entender, foi jogado ao chão e revistado com brutalidade. Depois compreendeu: uma mulher, que havia visto alguém tentando roubar seu carro no estacionamento, chamou a polícia e, ao ser indagada sobre o suspeito, apontou para ele (sabe-se lá por que!), que entrava naquele espaço sem saber de nada. Os populares ao redor acudiram e explicaram que ele havia acabado de chegar. E assim ele foi liberado após explicar que usava o gorro apenas porque estava com frio e já não tinha cabelos. Foi liberado pelos PMs de cara feia, a contragosto, sem nenhum tipo de pedido de desculpas.

E foi assim que conheci meu amigo Lécio Panobianco, através do facebook. Trocamos ideias, muitas ideias: de receitas para restauração da saúde a papos sobre fotografia (ele era fotógrafo freelancer, e dos bons!)

Os meses foram se passando e as suas consultas e exames no sistema público de saúde eram constantemente desmarcadas, postergadas, negadas. O desespero dele crescia par a par com o tumor que o ameaçava e nada havia a fazer, já que o dinheiro necessário para pagar por tratamentos particulares não existia. A cada nova postagem dele lamentando o descaso do sistema, que desmarcava seguidamente e sem dó consultas e exames, o nó na minha garganta crescia e minhas pequenas tentativas (do tamanho dos meus braços, nunca do meu coração) de conseguir alguma ajuda médica recrudesciam, porém sem grande sucesso.

Foi quando outro conhecido do facebook entrou na historia e conseguiu, através de alguns contatos pessoais privilegiados, o milagre de realizar em uma semana tudo o que não se conseguiu ao longo de um ano: exames em um bom hospital e a cirurgia que extraiu o tumor de sua virilha. Uma grande vitória numa pequena batalha, mas com certeza uma bandeira de esperança fincada no cume da incerteza. Mas foi tardia demais essa vitória, pois as metástases já eram numerosas e só o que restou foi tentar manter o bom ânimo, o moral elevado e um pouco de companheirismo pela internet antes do fim.

Eu nunca tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, só nos falamos por mensagens e uma vez com áudio e vídeo, via skype. Porém, eu tinha um grande carinho por ele e torcia imensamente por seu restabelecimento.

Ele se foi na sexta-feira passada, dia dezenove de Abril de dois mil e treze. Não deveria ter ido, pois ainda era novo, não tinha cinquenta anos. Mas se foi, deixando um vácuo em seu lugar, uma falta que sua família sentirá por muitos anos ainda.

E se foi porque os impostos que pagamos não servem para nos atender nas horas de necessidade e sim para que políticos desonestos nos roubem diuturnamente, numa imoralidade já costumeira, consagrada e asquerosa.

Ele se foi porque nenhum profissional do sistema público de saúde que o atendeu e tratou teve consciência e real interesse pelo ser humano que buscava ajuda... se foi porque a cegueira e o desamor campeiam soltos por aí.


Lécio, meu amigo querido, na verdade eu nem tive tempo de dividir com você minhas pálidas e frouxas crenças num “depois da vida” benfazejo, confortador e compensador, mas estou aqui agora de mãos postas e coração límpido, vibrando e orando pelo seu conforto, pela sua alegria e pelo seu bem estar onde quer que você esteja. 

Seja feliz, meu irmão.
BIZARRICES.


Que o ser humano é ocasionalmente bizarro é uma verdade já consagrada em todo canto. Há os que nos chocam com suas bizarrices, assim como há os que nos encantam e divertem com suas peculiaridades bizarras.

Mas há os que realmente “pulam o Corguinho” quando se trata de perder a noção da normalidade, do bom senso, né não?

Estou sem internet em casa, pois moro numa chácara cercada de morros e árvores altas, o que não permite sequer a boa e velha internet movida à lenha, ou seja, internet à rádio. Enfim, tenho que vir ao cibercafé sempre que preciso acessar a internet e isso tem causado problemas vários, como a minha falta de assiduidade a esta amada coluna.

Outro dia eu estava aqui, sentadinha, mandando material para as aulas de música da escola quando um rapaz novo, descoladésimo, se sentou na cadeira ao meu lado e ligou o skipe (para quem não sabe, é uma programa que permite conversar e ver a pessoa do outro lado, um videofone). Logo conectou-se com outro rapaz tão novo quanto ele e iniciou uma conversa sui generis. Sem preâmbulos nem maiores cerimônias, foi perguntando ao rapaz se ele era passivo ou ativo.

Uau, subitamente o ciber todo parou de teclar para começar a ouvir melhor depois dessa... afinal, não é todo dia que se ouve uma pergunta dessas em público, feita em voz alta e clara.

O cara respondeu algo que não ouvimos, porque é claro que o moço ao meu lado usava um fone de ouvidos, mas deve ter perguntado ao rapazinho de onde ele estava falando. E o moço respondeu candidamente que estava no cibercafé. O outro deve ter se incomodado muito com isso, porque o que estava ao meu lado ficou uns bons cinco minutos perguntando: “O que é que tem?” “Qual o problema?” e argumentando que era tudo absolutamente normal. Ele deve ter tido sucesso com o amigo, porque o discurso original continuou em alto e vibrante tom. Perguntas como “quantos anos ele tem?”, “é ativo ou passivo?”, “ele cobra o programa?” se sucederam e o papo continuou assim por mais ou menos uma hora.

Vejam bem, nada tenho contra a homossexualidade, na verdade tenho amigos muito amados que são homossexuais. O que me fez achar o discurso do moço bizarro não foi o conteúdo da conversa em si, mas a abertura das intimidades dele com estranhos ocasionais que estavam sentados ao lado dele. Isso é algo estranho, bizarro mesmo para mim, pois seria como se todos nós nos puséssemos a falar sobre nossas performances e preferências sexuais para platéias de desconhecidos no meio da rua, o que para mim é algo horrendo.

Sou só eu que acho isso estranho ou tem mais gente que pensa como eu?

Ah, o ser humano, fonte de infinitas surpresas e comportamentos. Neste caso, nada de mais significativo, pois não fez mal algum a ninguém, só deixou alguns meio pasmos e outros tantos chocados. Eu, pessoalmente, me diverti bastante, pois a singularidade da conversa realmente foi hilária.


E assim vamos indo, conhecendo mais e mais a cada dia, aprendendo e ampliando nosso conhecimento do mundo a cada passo. Uma benção isso, não?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


É NATAL NOVAMENTE SOBRE A TERRA...

O Natal se aproxima e, embora muito discretamente, um clima especial vai se formando em torno de algumas pessoas. Poucas, estas pessoas sentem seus dias ficarem um pouco mais amorosos e vão vendo sua sensibilidade aumentar, enquanto as lembranças queridas começam a aflorar aos borbotões. É novamente aquele tempo bonito, aquele tempo de brilho, vermelho e verde na decoração, de árvores bonitas e de presentes enfeitados.

E muitos preparam suas vidas e seus corações para os dias que aí vêm fazendo grandes faxinas físicas e emocionais, em si e em torno de si, começando a celebrar em seus corações o nascimento de um ser (um ser real ou fictício, não importa... importa mesmo é o que essa ideia nos faz sentir!), o nascimento de um ser que encerra, no hemisfério ocidental, a nossa maior e melhor ideia de amor.

É certo que sabemos que esta época não é assim tão boa e bela para todos. Afinal, vivemos num mundo imperfeito e rico em variedade de culturas e costumes, um mundo na verdade meio enlouquecido, meio torto, um mundo que só segue em frente porque vai equilibrando suas paranoias, psicopatias e neuroses. E sabemos também que há muitas nuvens pesadas no céu das nossas emoções nestes dias. Sim, há nuvens escuras a nublar nosso horizonte, a comprometerem nossa preciosa sensação interior (já tão frágil!) de segurança, amor e fraternidade.

É que por mais que seja Natal, a grande festa da luz, nós não podemos nos esquecer das crianças e educadores que foram brutalmente assassinados dias atrás nos EUA; não conseguimos olvidar que a violência humana em relação aos animais permanece entre nós e que não mostra sinais de decrescer; que a guerra suja praticada no Oriente segue em frente, com as ações monstruosas de Israel, apoiado pelos EUA, penalizando os civis palestinos; que nossos índios estão sendo massacrados pelo agronegócio e pela indiferença governamental; que milhares de crianças ainda são brutalizadas impunemente em muitos lugares e que há milhões de seres humanos que não têm sequer com o que se alimentar, tudo isso enquanto fazemos nossas compras para a ceia festiva.

Mas a solução destes probelmas está fora das nossas mãos, certo? Nada podemos fazer, a não ser assistir aos fatos como espectadores passivos e impotentes. E assim, vamos assistindo aos caos que nos cerca chocados, horrorizados, penalizados... e só podemos mesmo é lamentar que seja assim, que mais há a fazer?

Em meio à frenética atividade das redes sociais nos últimos dias eu me vi levada de roldão pelas apaixonadas discussões políticas, pela justa indignação das pessoas com o descaso dos governantes para com as necessidades do povo, pelos apelos em nome da ética para que não se compre produtos do Boticário (porque eles apoiam o uso de peles de animais pelos estilistas da moda) e por tantas outras ideias assim arrebatadoras. Quase me senti adoecer de tanto que meu coração se entristeceu e se solidarizou, se revoltou e doeu nestes últimos tempos... houve dias em que andei triste além da conta mesmo.

Mas é Natal novamente, e a imagem de um menino iluminado nascendo numa manjedoura, a ideia de um ser divino e especial ter vindo ao encontro desta humanidade, perdida e desconexa, para semear a tolerância, o amor e a solidariedade, me enche de esperança e de novo alento. Talvez não sejamos um caso totalmente perdido, afinal. Talvez não precisemos torcer para que as profecias que rondam o vinte e um de Dezembro se realizem. Quem sabe até tenhamos condições de vir a ser uma humanidade fraterna, justa e ética algum dia, quiçá ainda possamos crer num futuro melhor.

Menino querido da manjedoura, Jesus, Cristo Planetário, Yeshua... não importa seu nome. Só queremos que você saiba que alguns de nós compreendemos e reconhecemos a sua luz, e que a acolhemos dentro dos nossos corações como semente preciosa, fazendo da sagrada comunhão entre o pouco que ainda somos e o muito que Você é, um caminho para a nossa iluminação pessoal. FELIZ NATAL!



PARADIGMAS

Somos  seres livres, certo? Nascemos para ser livres e pensamos e agimos como se fosse realmente assim. Alguns de nós somos cultos, eruditos mesmo, capazes de opinião própria, ampla e bem fundamentada, libertária.

Mas a esmagadora maioria das pessoas vive condicionada pelo meio e pelas ideias impostas pelo sistema, sem se aperceber do quanto repete padrões e comportamentos universalizados, considerados bons, aceitos e festejados como apropriados. Um contingente imenso de seres humanos perambula pela vida a esmo, andando como autômato, consumindo o que lhe indicam, amando aquilo que lhe apontam como amável, odiando aquilo que lhe dizem para odiar.

Fruto de uma sociedade doente e manipuladora, sociedade que percebe o diferente como um perigo em potencial, o ser humano tenta se amoldar e se adaptar, tenta ingerir, digerir e assimilar tudo aquilo que lhe torna palatável e bem quisto pelo seu próximo. E, nesse meio tempo, ele perde seu brilho interior, sua capacidade de discernir e julgar, a partir de valores mais genuínos e puros, aquilo que realmente lhe serve e que pode ser um fator benévolo para seu entorno.

Como tudo isso acontece é fácil de compreender: a família perpetua seus valores, alguns claramente sem fundamentos válidos, enquanto a religião impõe medos e culpas sem fim (sem esses elementos não se controla ninguém!) e a escola convencional apara, desbasta, formata e embala para viagem. E ao fim do processo desta insana linha de montagem, nos deparamos com seres descoloridos, desprovidos de capacidade crítica, de personalidade, seres capazes de reproduzir à exaustão comportamentos nefastos e desagregadores.

Esta pequena história que cito abaixo nos demonstra, de forma simples e clara, como é muito fácil dirigir, adestrar e imbecilizar pessoas.

“Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula. Em seu centro havia uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão.

Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros o enchiam de pancadas e, passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos.

A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído.

Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: - "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui...".

(Pode até ser utópico, mas um dos meus maiores objetivos pessoais é tentar fazer com que nunca, jamais, em tempo algum, eu chegue ao ponto de impedir alguém de subir as escadas, de fazer coisas das quais não compreendo o sentido...)

“UM DESFILE DE UNHAS” 

(OU COMO A FUTILIDADE TOMOU DE ASSALTO A SOCIEDADE”)

Eu sou assinante da Sky, TV por assinatura, e ela é a responsável por preencher alguns os meus momentos de ócio preguiçoso diante do televisor. E o faz com imagens lindas e interessantes de animais dos mais variados,  de planetas , sóis, estrelas,  constelações,  com alguns filmes adoráveis ou nem tanto, com notícias de todo canto,  com séries que acabam com a seriedade dos meus dias e com outras coisas assim, que se sucedem no brilho da minha telinha. Programas, programas dos mais variados, a toda e qualquer hora, sempre a postos para me entreter por algum tempo.

Da maior parte deles eu gosto, e sempre que possível lá estou eu gargalhando com Sheldon Cooper ou morrendo de saudade com Bonanza, Arquivo X, Star Treck. Às vezes, só para passar o tempo, fico aprendendo pratos deliciosos que jamais prepararei com a Nigela ou viajando mundo afora com exploradores que me mostram coisas e lugares que jamais verei ao vivo e em cores. Tudo muito bom, tudo leve e gostoso.

Mas outro dia eu passei, por acaso, por um programa num canal qualquer, acho eu que no Multishow, e parei para ver por mera curiosidade. Quase não consegui acreditar nos meus olhos e ouvidos quando comecei a ver as imagens e ouvir as entrevistas. Tratava-se de um “desfile de unhas”, onde garotas pintavam suas unhas de maneiras “criativas”, adornavam suas mãos com laços, anéis, pulseiras, mais o escambau a quatro e faziam seus dedinhos caminharem por um tapetinho como se fossem pessoinhas desfilando, enquanto que duas mulheres nem tão jovens, as sofisticadas promotoras do evento, explicavam sobre a utilidade e absoluta necessidade de se apoiar um evento daquele tipo, visto que pintar as unhas hoje em dia não é mais apenas um detalhe, mas uma grande produção que centraliza as atenções de todos em eventos sociais.

Fiquei meio que suspensa no ar por alguns segundos, sem saber se realmente poderia acreditar naquilo que estava vendo e ouvindo.  Demorou um pouco para a ficha cair: aquelas mulheres ricas,  sorridentes e fúteis, estavam mesmo  falando um blá blá blá tipo besteirol completo sobre unhas decoradas, enquanto o mundo está pegando fogo.

As unhas desfilam no tapetinho enquanto os israelenses estão assassinando civis palestinos todo santo dia, com as bênçãos do governo norte-americano e a elegante indiferença internacional; favelas estão sendo metódica e criminosamente queimadas a cada novo dia em alguma grande cidade do Brasil para dar espaço à especulação imobiliária; o mensalão periga não dar em nada que se possa realmente chamar de justo; nossa presidente corta verbas da Saúde e da Educação nacionais e empresta bilhões para Cuba; a África sucumbe diante da violência, da fome, e milhares de criança morrem de subnutrição todos os dias; os escândalos políticos se sucedem um após o outro; os serviços públicos brasileiros estão em estado de calamidade e as fulanas fazem um desfile de unhas, que é filmado e divulgado na grande mídia como um evento digno de nota.

Sou só eu que acho que esta coisa toda está alienada e delirante demais, que está podre além da conta, que a falta de bom senso bateu seu maior recorde ou tem mais alguém que pense assim?  Serei apenas eu a chata de plantão, aquela que não delira com uma novidade destas, ou haverá mais pessoas como eu, pessoas que conseguem enxergar o tamanho deste engano, um engano recheado de lorotas e ilusões, em que está mergulhando a nossa sociedade?

E ainda há as perguntas que não querem calar: existe futuro e salvação para uma humanidade em que um desfile de unhas acontecendo num tapetinho de mentirinha é um fato relevante, a ponto de um canal de TV fazer um programa sobre isto? Minha mãe terá tomado LSD durante a gravidez ou o mundo é assim mesmo?

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

DA MINHA COMPLETA DESILUSÃO EM RELAÇÃO AO SISTEMA.

DA MINHA COMPLETA DESILUSÃO EM RELAÇÃO AO SISTEMA.

Caro leitor, se você pretende ler uma crônica leve, bem humorada, cheia de pequenos encantos e delícias, devo aconselhá-lo a procurar outra página mais legal do que esta, porque hoje estou do avesso e a coisa aqui vai ser feia.

É, eu me virei do avesso... porque a dor por dentro é tanta que não dá mais para suportar. Então resolvi colocá-la para fora, virando meu avesso para o exterior para poder esfregá-lo na cara daqueles inconscientes que não sabem o que acontece nos quintais das suas casas.

PINHEIRINHO...

Vergonha de ser brasileira. Dor pelo sofrimento do meu semelhante. Revolta por ter as mãos atadas diante destas administrações podres e corruptas. Medo por estar num mundo onde este tipo de barbárie se comete livre e impunemente.

PINHEIRINHO...

Holocausto tupininquim, ditadura descarada, violência injustificada e desnecessária. Insanidade social no mais alto grau.

PINHEIRINHO...

Assassinato em massa de humanos e animais. A lei do mais forte em ação. Descaso pela vida e pela dignidade humanas.

PINHEIRINHO...

Ampla vitrine social que reflete, no espelho da verdade, quem é quem. Reflete Alckmin, o que autoriza a matança; reflete Dilma, que se fez de cega, surda, muda e retardada para depois, lá na distante Cuba, falar que achou a coisa toda bárbara (bárbaro mesmo foi o solene “foda-se” que ela gritou com seu silêncio em relação à situação!); reflete também a “JUSTIÇA” (deveríamos ter mais pudor ao usar esta palavra aqui no Brasil, já que ela nunca se aplica), esta justiça parda e minúscula que, como sempre, lava as mãos no melhor estilo Pôncio Pilatos.

PINHEIRINHO...

Onde hoje a força bruta ainda está agindo contra os indefesos acampados, que têm sido aterrorizados dia e noite pela polícia que os contém (para segurança dos poderosos) naquela miserável condição. (Você duvida? Entre em contato pelo email acima e eu lhe envio alguns links para que você veja por si).

PINHEIRINHO... JAMAIS ESQUECEREMOS.

E as mentiras continuam...

Aqui, a resposta da Assessoria:

Governo do Estado repudia artigo sobre Pinheirinho

É com repúdio que o Governo do Estado recebe as mentirosas e inconseqüentes declarações da professora Érica Marin, em seu artigo “Da minha completa desilusão em relação ao sistema” publicado neste jornal no dia 02/02/2012.

Afirmar que o processo de reintegração de posse do Pinheirinho é o Holocausto Tupiniquim coloca em xeque o próprio discernimento de realidade da professora. É uma afirmação no mínimo absurda. Não houve um caso sequer de morte e a Polícia Militar em nenhum momento utilizou armas letais para a ação. Os moradores concordaram em sair pacificamente do local e os raros casos de confronto foram provocados por grupos radicais. Afirmações como que houve “assassinato em massa” revela que o artigo da professora é tão somente alarmista e descabido.

No último dia 26, o governador Geraldo Alckmin anunciou a construção de cinco mil moradias na cidade. Além disso, os ex-moradores já estão recebendo o aluguel social. O benefício tem valor de R$ 500 mensais (R$ 400 ofertados pelo Estado e R$ 100 pela prefeitura de São José dos Campos), e está garantido até as famílias receberem o atendimento habitacional por definitivo. Essas são as ações do governador para as famílias do Pinheirinho.

Escrever mentiras e fazer uma comparação tão infeliz, de um processo de reintegração de posse pacífico e decidido em esfera judicial, com um dos períodos mais tristes da história mundial e que culminou com a morte de milhares de pessoas, é leviano e de uma ignorância inadmissível para uma professora, responsável pela educação de tantas pessoas.

Assessoria de Imprensa do Governo do Estado de São Paulo.

DA MINHA COMPLETA DESILUSÃO EM RELAÇÃO AO SISTEMA II

Foi com grande satisfação que li a réplica dos senhores Assessores de Imprensa do Governo do Estado de São Paulo. Se eles se deram ao trabalho de rebater minhas denúncias é porque, com toda certeza, elas procedem. Se fossem invenções inexatas, ilusões bobas de uma Josefa-ninguém eles deixariam para lá. E gostaria de deixar claro que a “professora Érica”, que só fala de Arte em suas salas de aula, não tem nada a ver com a coluna. Porém eu, a “Érica-cidadã-consciente”, por ser um ser humano dotado de inteligência, senso crítico, compassividade e ética, escrevi o texto e assumo toda a responsabilidade por ele.

Por ser muito bem informada (o que dizem que não sou) é que vim a público falar daquilo que a mídia de massa esconde a todo custo, da verdade por detrás da ocupação de Pinheirinho. A Globo empurra o nojento BBB goela abaixo de seus “fiéis” mas não mostra nada daquilo que deveria mostrar, enquanto que outras tantas mídias importantes fogem da sua responsabilidade para com a informação do povo. (Meus sinceros parabéns e profunda gratidão ao Diário de Taubaté pela coragem de propiciar a mim este espaço sagrado de expressão!)

Retomando a expressão holocausto, devo dizer que na Alemanha nazista de Hitler os judeus eram lançados para fora de suas casas, desprovidos de tudo que era seu e eram marcados com estrelas de seis pontas em suas roupas (mais tarde iriam morrer nas câmaras de gás e não foram milhares, mas aproximadamente sete milhões). Já os moradores de PINHEIRINHO foram lançados para fora de suas casas com requintes de violência, foram aterrorizados, privados de tudo que possuíam, foram marcados com pulseiras coloridas e ainda tiveram o desprazer de ver muitos dos seus animais de estimação serem mortos a tiros (em frente aos seus filhos pequenos) ou soterrados entre os escombros da demolição. VERGONHA!!!

Por falta de espaço (mas na semana que vem eu continuo) vou parando por aqui, deixando a como convite alguns links onde os interessados poderão, acessando a Internet, ver pessoalmente as razões das minhas postagens. Tenho os vídeos e textos comigo e me disponho a ir até Taubaté (caso algum espaço com condições seja disponibilizado para o evento) para mostrar pessoalmente às pessoas todo o material que recolhi. (E NÃO, eu não tenho nenhuma pretensão eleitoral porque desprezo absolutamente a tal política partidária).

Aqui, um defensor público prova a má fé e a arbitrariedade do Governo do Estado em relação à desocupação: Defensor público explica porque a ação no Pinheirinho não poderia ter acontecido - http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=JfUuOaXdIBE

Neste, http://www.youtube.com/watch?v=huMSeSWvkQQ&feature=related podemos

ver cenas reais dos atos cometidos.

Aqui, http://www.youtube.com/watch?v=PMLiUjQUPo4&feature=related vemos o esforço de um jovem artista em greve de fome em frente à Globo pedindo uma cobertura decente dos fatos.

Neste artigo, Uma voz no tiroteio - http://www.cartacapital.com.br/sociedade/uma-voz-no-tiroteio/ podemos ler um excelente e destemido texto sobre o massacre.

Neste, mostram sobre a comida azeda que está sendo entregue aos desabrigados pela prefeitura de S.J.C. http://www.youtube.com/watch?v=aGmWgfQN6bY

Aqui, Ricardo Boechat se expressa sobre a barbárie, aludindo aos conchavos escusos existentes entre os interessados na desocupação: http://www.youtube.com/watch?v=mghmTSVEyrM&feature=related

Este trás um diálogo muito interessante ocorrido um dia antes do massacre: http://www.youtube.com/watch?src_vid=NBjjtc9BXXY&feature=iv&annotation_id=annotation_405936&v=YHUiFYtwXOA

Há muitos outros... mas por hoje vou parando, porque o espaço de que disponho é reduzido. Gostaria de escrever mais, porém deixarei para a semana que vem, quando retomarei o tema para, quem sabe, finalizá-lo. Este e os outros textos estarão disponíveis no blog indicado acima do artigo. Fico grata a todos pela leitura gentil e atenta.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

OS ECOS DO DESCASO.


É cedo, a amanhã raiou há pouco. Noêmia se levanta, vai ao banheiro, lava o rosto, prende o longo cabelo num coque rápido e segue para a cozinha. Põe a água para ferver para o café, abre a janela e dá uma olhada no céu azul, imaginando quanta roupa ela poderá lavar durante o dia. Fica feliz, não há sinal de chuva e ela vai poder adiantar o serviço.

Abre o armário e encontra o saco de pão amassado, mas não vazio. O filho mais velho havia comido quase todos os pães ao chegar da escola, tarde da noite, cansado e faminto, mas ainda havia o suficiente para o café da manhã. Caprichosamente, ela pega os pãezinhos, umedece um por um e os coloca na assadeira de alumínio, levando-os ao forno para ficarem novamente crocantes.


Estica a toalha limpa sobre a mesa, pega duas canecas, dois pratinhos, uma faca e colherinhas. Lembra-se do açucareiro, da margarina e das poucas fatias de mortadela que haviam sobrado do dia anterior. Desde que o marido tinha ido embora com outra mulher, a vida ficara mais difícil e solitária, mas ela estava dando conta de criar os dois filhos com seu trabalho de costureira e com a ajuda dos irmãos da igreja, sempre presentes quando a necessidade se fazia maior.


Passa o café e vai acordar Ritinha, a filha de dez anos, que dorme na cama ao lado da sua e é fã de mortadela.A casa é pequena, então todos dividem o mesmo quarto. Chama pela filha, que acorda e se espreguiça. Diz bom dia saindo em seguida aos pulos, para lavar o rosto. Logo depois estão ambas sentadas à mesa, conversando sobre assuntos banais enquanto engolem o café com pão. Terminando a rápida refeição, Ritinha pega sua mochila, cheia de chaveirinhos pendurados, e se dirige contente para a escola, enquanto a mãe começa a limpeza da casa já pensando nas peças a cortar e costurar.


Em outro canto da cidade Wellington acorda sozinho, na casa quase sem móveis, sem beleza e sem aconchego. Sente fome, mas não há quem lhe faça o café ou lhe dirija um bom dia. Isso só acentua sua sensação de solidão, sua dor interior, fazendo fermentar seus pensamentos desencontrados. Pai e mãe, irmãos, amigos... tudo isso lhe falta, nada disso pertence à sua rotina. Ele tentou fazer amigos nas escolas onde estudou, mas nunca conseguiu ser realmente notado, visto, aceito, querido, sendo sempre apenas um nome a mais na lista de alunos e um rosto anônimo e desiludido na multidão das salas de aulas.


O pouco conforto que encontrara nos últimos anos solitários viera das leituras de textos religiosos que caíram em suas mãos por acaso. Incapaz de interpretá-los e compreendê-los sozinho, tanto quanto de procurar novamente o convívio de um grupo humano numa igreja qualquer, absorve destas leituras apenas conceitos vagos, representados por palavras desconexas que se agitam no seu interior. E hoje, por sinal, elas se agitam mais do que nunca, tornando-se dolorosas interrogações e acusações, afirmações de desesperança e abandono. Por onde andavam aqueles que lhe tinham negado amizade? Como viveriam aqueles que o haviam ignorado e espezinhado por anos a fio?


As perguntas crescem junto com a revolta, com a dor, com a solidão, com a sua incapacidade de lidar com a enormidade da sua confusão mental. Interiormente ele avalia novamente, como já vem fazendo há meses, a possibilidade de dar um fim àquele estado de coisas, colocando em prática seus planos de desforra e vingança. Decide-se a realizar os planos naquele mesmo dia. Para que esperar mais? Pelo que esperar mais? Pela compassividade de uma sociedade que nem sequer nota sua existência?


Resoluto, junta dentro da mochila as armas, as balas, a revolta, a solidão, a dor do anonimato e da falta de amor e segue resoluto para o local da sua ultima tentativa de uma vida normal, a escola onde estudou nos últimos anos. Ao chegar lá, não encontra mais os alunos que o desprezaram no seu tempo, mas seus olhos os enxergam representados por outras crianças inocentes, que ele ataca furiosamente pensando, talvez, em assim poder exterminar a dor que o corrói por dentro. Mata, fere, é baleado e, num ato final de supremo desespero, tira a própria vida, deixando registrado num papel qualquer toda sua dor e confusão interiores.


Daqui para frente, Noêmia não tomará mais seu café da manhã ao lado de Ritinha, porque ela e sua predileção por mortadela terminaram ali, no tiroteio. Daqui para frente, não haverá mais Wellington de tal, um coitado anônimo que só conseguiu despertar a atenção das pessoas de todo um planeta quando se tornou um assassino de crianças inocentes.


Ninguém ganha, todos perdem,


e infelizmente nada mudará para melhor depois disso.


Entristecedor.

domingo, 27 de março de 2011

MILHO AOS POMBOS.

Grande Zé Geraldo!



Ao escrever esta canção, cujo título eu tomei por empréstimo para nomear minha coluna de hoje, ele provavelmente pretendia despertar no cidadão médio alguma capacidade de reflexão para a urgência das coisas ditas incomuns, aquelas que fogem à rotina do nosso cotidiano e se escondem dos nossos olhos, mas que merecem um olhar diferenciado de nossa parte.



Ocasionalmente eu componho músicas (já até ganhei alguns festivais) e, quem sabe, um dia eu também componha algo assim necessário, algo assim lúcido como Milho aos Pombos, falando com a poesia necessária sobre as coisas que precisam ser ditas e ouvidas para que algo, talvez, mude algum dia para melhor na nossa sociedade, no nosso planeta.



E eu falaria de muitas coisas... como a dor do outro, que existe para além da minha pele e pela qual eu passo indiferente; coisas como a fome, essa assassina encruada que passeia pelo mundo a ceifar populações inteiras, como as das nações africanas mais pobres, e a matar milhares de crianças em tenra idade todos os dias; coisas como a violência das muitas guerras e revoluções que hoje convulsionam alguns países africanos; coisas ainda como a ignorante violência que, mascarada de religião, oprime e assassina milhares de mulheres todos os dias nos países islâmicos. Se sobrasse inspiração depois de tudo isso, poderia falar ainda do calor do toque de outra mão na minha, de lábios macios sobre os meus, mas não creio que estarei no clima.



Caso eu escreva tal canção algum dia, estarei preparada para o fato de que muitos não gostarão de perceber, na minha canção, entrelinhas plenas de tantos significados e de críticas duras a alguns aspectos sociais e políticos amplamente aceitos e festejados. Devo admitir também que, com certeza, terei composto sem que alguém tenha me pedido isso, tanto quanto ninguém pediu a ele, o Zé Geraldo, para colocar em versos sua opinião sobre os assuntos que ele desnuda em sua letra e nem pediu a ele que levantasse estas lebres todas e as jogasse na cara dos alienados, demonstrando o quanto a cegueira e a acomodação das pessoas pode contribuir para este estado de coisas (mas ele o fez porque este é o papel do artista, do comunicador e de todo aquele que se dirige a algum grupo em algum momento, seja ele um cantor, um autor, um professor, um escritor, um colunista ou um cineasta, o papel de levar idéias e informações incomuns ao público, idéias que funcionem como um fermento no o meio das massas que jazem inertes por falta de formação, informação ou por mero comodismo).



Assim, seguindo os passos de tantos outros que levantaram lebres e agitaram idéias antes de mim (mas provavelmente com muito menor brilhantismo), eu escolho meus assuntos de acordo com aquilo que me ocupa a mente e o coração no momento em que escrevo, sempre buscando presentear o meu leitor com um texto-prisma, um algo cristalino e de várias faces, capaz de refletir a mesma realidade em infinitas nuances e em ângulos caprichosos e incomuns.



Por isso ocasionalmente deixo de lado os aspectos mais belos e poéticos dos dias e falo daquilo que, mesmo podendo ser incômodo para alguns poucos e incomum para muitos, são assuntos que me apaixonam, que me incomodam, que eu estudo e pesquiso porque atiçam minha curiosidade e julgo pertinentes, necessários, abordando-os fraternamente, de maneira fundamentada e sensata. Compartilhar com as pessoas os resultados que obtenho nas minhas pesquisas sobre tais assuntos é muito compensador porque sei que eles são incomuns, que eles não são, em geral, abordados pelas mídias, e eu creio que todas as pessoas do mundo têm o direito de saber um pouco de tudo aquilo que ocorre por aí, seja nos nossos corações, nos nossos corpos, na nossa cidade ou país, no continente ou no planeta... e isso por mais que alguns assuntos pareçam risíveis, estranhos e/ou incômodos.



E mais, eu sinto que estas conclusões a que chego, a partir do meu sentir, das minhas observações e estudos pessoais, não pertencem a mim apenas. Não, elas são universais, são do interesse geral, porque atingem a todos nós, porque alcançam de alguma forma a todos os que aqui vivem e não são um algo ambíguo como um ponto de vista pessoal sobre o amor ou predileção por um partido político ou por um time de futebol, amores que importam ao indivíduo que sente tal amor e a mais ninguém além dele. Meus informes e conclusões são de interesse geral porque abordam o genérico, o universal, o comum a todos nós, por isso julgo útil e agradável partilhá-los.



Assim sendo apertem os cintos, queridos leitores, porque mais questionamentos, notícias incomuns e assuntos espinhosos vêm pela frente. Mesmo por que eles, os fatos, ocorrem independentemente de se acreditar previamente neles e de os desejarmos ou não. .

E AGORA, JOSÉ?

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A internet ferveu nos últimos dias. Aos montes, pipocaram em toda parte notícias, fotos, vídeos, textos e reportagens abordando, sob todos os ângulos possíveis, o terremoto e o conseqüente tsunami do Japão. Vi, na telinha do meu computador, cenas inéditas e cruéis que não vi na TV; conheci, através dos textos publicados em blogs e sites de notícias, alguns pontos de vista amplos e bem fundamentados sobre o evento sísmico, assim com também outros tantos bastante risíveis. Participei e moderei muitos debates sobre o tema nas listas de discussão que assino.

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Certo, tudo isso é de se esperar quando um evento catastrófico desta magnitude levanta poeira (no caso não poeira, mas muralhas de água) na nossa aldeia global. Aldeia sim, porque hoje estamos inegavelmente conectados, ligados, amarrados uns aos outros, somos todos UM. Por menos que entendamos ou aceitemos esta realidade, sim, somos UM.

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A catástrofe doeu no Japão e vai doer, num efeito dominó inevitável, no mundo todo. Seja por conta da radiação (que agora ameaça se espalhar amplamente), pelos inevitáveis problemas econômicos que surgirão para assombrar ainda mais as já combalidas finanças japonesas, russas e americanas (há outros falidos, mas vamos deixar para lá por enquanto) ou ainda pela escassez de alimentos que vai se desdobrar daqui para ali abraçando nação após nação, sem dar tréguas, eu tenho certeza que vai doer.

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Eu nutro uma imensa simpatia pelo povo japonês. Valentes, corajosos, organizados, laboriosos, eles saíram da segunda guerra mundial em farrapos, mas deram uma magnífica sacudida na poeira e uma imensa volta por cima da situação, atingindo níveis de desenvolvimento bastante significativos (não fosse pela crueldade praticada por eles na matança de baleias, de golfinhos e na falta de respeito pela dor da vida animal, eu os acharia a raça mais evoluída da Terra).

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Lamentando profundamente pelo fato de eles terem que passar mais uma vez por uma provação assim tão grande, acabei por sentir a necessidade de olhar para "o meu umbigo" (esta vidinha cotidiana de todos nós). Um umbigo brasileiro, um umbigo acostumado a presenciar algumas tormentas, mas não as naturais e sim as da corrupção onipresente nos diversos níveis do poder público, da Lei de Gerson (já impressa no DNA do cidadão médio), da alienação que varre a mente da população (intoxicada tanto por big mac's quanto por big brothers e por um consumismo deslavado e desenfreado).

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Embora este umbigo não esteja ainda acostumado a ver este tipo de tragédia acontecendo no quintal de casa, acho interessante que ele vá se acostumando à idéia de que já faz certo tempo que Deus pediu cidadania em outros rincões, deixando para trás a terra do samba, suor e cerveja, a terra das palmeiras onde canta o sabiá. Ocorre que um dia antes do terremoto do Japão acontecer, os gráficos do LISS (LIVE INTERNET SEISMIC SERVER, que é um site que mostra ao vivo uma coletânea de dados sísmicos coletados a partir de estações sismográficas instaladas em todo o mundo), mostravam uma muito intensa atividade sísmica global, simultânea, incomum, uma coisa de assustar, pois os monitores situados em terras brasileiras também mostravam atividade constante e preocupante. Algo assim como o planeta se chacoalhando como um cão após o banho, compreendem?

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Para quem não sabe, aí vão alguns dados que a mídia, no geral, não veicula: no dia 02 de março de 2011 um terremoto de 3.2 graus atingiu a cidade de Aliança do Tocantins (TO); no dia 04 de março de 2011 um terremoto de 3.7 graus atingiu a cidade de Estrela do Norte (GO); no dia 05 de março de 2011 um terremoto de 3.2 graus de magnitude atingiu a cidade de Montes Claros (MG). Foram três terremotos em apenas 72 horas, com a mídia em silêncio... (quereriam eles omitir informações desta natureza para não disseminar o pânico?)

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Como eu disse antes: hoje dói no Japão, amanhã talvez doa aqui, na nossa terrinha; no Chile, ainda mais exposto que nós; nos EUA, eternamente à espera do Big One; em qualquer outra parte do famigerado anel de Fogo do Pacífico. O Sol desperta e promete turbulências; a economia mundial vai indo mal das pernas; as safras quebram em todo canto por conta das secas, das enchentes, das nevascas. A situação se complica, meus caros!

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Bem, meu espaço para escrever se acabou por hoje, mas penso que ainda dá para deixar uma pergunta no ar, um algo para se pensar: E AGORA, JOSÉ?
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EDUCANDO SEM VIOLÊNCIA

Estou publicando esta coluna meio atrasadinha, pois já estamos em Março e ela foi escrita em Janeiro. Mas tudo bem, idéias não envelhecem e meu ponto de vista não mudou.

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Janeiro chega ao fim e todos nós, os que trabalhamos na área da Educação, já estamos vibrando na energia da volta às aulas. Alguns, satisfeitos com a prática do magistério, já estão cheios de planos para o ano letivo e se sentem contentes por voltar às salas de aulas; outros muitos, abandonados e sabotados pelo sistema mal ajambrado e equivocado, já andam tensos e temerosos em relação àquilo que enfrentarão no decorrer deste ano. Suportarão o desgaste das eternas batalhas que travam com alunos, direção e comunidade para poderem realmente ensinar? Irão agüentar mais um ano de descaso e desatenção, sobrevivendo dolorosamente ao passar dos dias?


Triste este quadro, não é mesmo? Pintado com as cores fortes da desestruturação da família, dos modismos educacionais, do descarte dos valores primordiais da ética, da gentileza, da boa vontade e do amor fraterno, esta paisagem, nem sempre fácil de enfrentar, é a realidade que espera muitos professores neste ano letivo que se inicia. As coisas poderiam mudar para melhor se alguns valores importantes fossem resgatados pela sociedade, se o sistema deixasse de ser complacente em relação à qualidade por conta das intenções eleitoreiras e se as famílias, renovadas por algum sopro divino e miraculoso, compreendessem a necessidade de reassumir com urgência as rédeas da educação de seus filhos, hoje outorgada a qualquer um que não eles, e pudessem oferecer aos filhos uma educação pautada pela qualidade, pelo amor, pela ética e pela integridade.



Sonhar nunca é demais, pois os sonhos são o combustível dos motores que nos levam às melhores mudanças. Por isso transcrevo abaixo um texto muito bom e inspirador (mas sem autoria) que recolhi na internet. Boa leitura!


O Dr. Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do MK Gandhi Institute, contou a seguinte história sobre a vida sem violência, na forma da habilidade de seus pais, em uma palestra proferida em junho de 2002 na Universidade de Porto Rico. "Eu tinha 16 anos e vivia com meus pais, na instituição que meu avô havia fundado, e que ficava a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul. Vivíamos no interior, em meio aos canaviais, e não tínhamos vizinhos, por isso minhas irmãs e eu sempre ficávamos entusiasmados com a possibilidade de ir até a cidade para visitar os amigos ou ir ao cinema.



Certo dia meu pai pediu-me que o levasse até a cidade, onde participaria de uma conferência durante o dia todo. Eu fiquei radiante com esta oportunidade. Como íamos até a cidade, minha mãe me deu uma lista de coisas que precisava do supermercado e, como passaríamos o dia todo, meu pai me pediu que tratasse de alguns assuntos pendentes, como levar o carro à oficina. Quando me despedi de meu pai ele me disse: -"Nos vemos aqui, às dezessete horas, e voltaremos para casa juntos".


Depois de cumprir todas as tarefas, fui até o cinema mais próximo. Distraí-me tanto com o filme (um filme duplo de John Wayne) que me esqueci da hora. Quando me dei conta eram dezessete e trinta. Corri até a oficina, peguei o carro e apressei-me a buscar meu pai. Eram quase seis horas. Ele me perguntou ansioso: -"Porque chegou tão tarde?"


Eu me sentia mal pelo ocorrido, e não tive coragem de dizer que estava vendo um filme de John Wayne. Então, lhe disse que o carro não ficara pronto, e que tivera que esperar. O que eu não sabia era que ele já havia telefonado para a oficina. Ao perceber que eu estava mentindo, disse-me: -"Algo não está certo no modo como o tenho criado, porque você não teve a coragem de me dizer a verdade. Vou refletir sobre o que fiz de errado a você. Caminharei as dezoito milhas até nossa casa para pensar sobre isso".


Assim, vestido em suas melhores roupas e calçando sapatos elegantes, começou a caminhar para casa pela estrada de terra sem iluminação. Não pude deixá-lo sozinho. Guiei por cinco horas e meia atrás dele, vendo meu pai sofrer por causa de uma mentira estúpida que eu havia dito.



Decidi ali mesmo que nunca mais mentiria. Muitas vezes me lembro deste episódio e penso: -"Se ele tivesse me castigado da maneira como nós castigamos nossos filhos, será que teria aprendido a lição?" Não, não creio. Teria sofrido o castigo e continuaria fazendo o mesmo. Mas esta ação não-violenta foi tão forte que ficou impressa na memória como se fosse ontem.


Este é o poder da vida sem violência e com AMOR (respeito pelo outro).

terça-feira, 1 de março de 2011

A BAITA BOBAGEM BABACA... E OUTRAS COISINHAS AFINS.

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Há momentos em que eu gostaria de ter os olhos nublados, os ouvidos moucos e o coração blindado.


Não é sempre que me sinto assim, mas de vez em quando a coisa bate, e bate forte.


Eu me sinto assim, por exemplo, quando ouço falar da tal da “Baita Bobagem Babaca” (ou, para os fãs, o BBB, Big Brother Brasil), esta escola de futilidades, de crueldade, de falta de ética e de moralidade. Em tempo, volto a dizer: não sou moralista, não sou puritana, não sou santa, não sou religiosa e nem sou bozinha demais... e mesmo assim considero um imenso desserviço ao país e aos seus cidadãos a veiculação do tal programa em rede nacional, com tanta divulgação enfiada goela abaixo do público que rumina e vegeta diante das TVs.


Fico perplexa com o tanto de atenção que estes anônimos são capazes de atrair, de Norte a Sul do nosso país. O tal programa é como um imã que canaliza olhos, ouvidos e corações para as realidades toscas ali vividas.
Pelos Deuses, será que a vida das pessoas anda assim tão ruim, tão banal e desinteressante a ponto delas preferirem gastar seu tempo olhando na TV o que pessoas estranhas vivenciam do que vivendo suas próprias aventuras, emoções e experiências? Será que os livros perderão de vez esta batalha contra o monstro televisivo, que mata a palavra escrita e ainda gargalha com escárnio diante de um povo emburrecido e mentalmente enfraquecido?


Não, antes que alguém me pergunte, eu não o assisto, mas basta que estejamos vivos para saber do que se passa na tal casa. As notícias quentes sobre os “heróis’ do Pedro estão no jornal, nas revistas, nos ônibus, no elevador, em todo e qualquer canto.
Alguém já viu tal divulgação e tanta festa em torno dos conteúdos educativos, dos assuntos relevantes, daquilo que pode mesmo erigir e edificar ou melhorar as condições de vida da população? Não, nós nunca vimos, e é isto o que mais dói.
Recursos inimagináveis gastos nesta bobagem num país carente de cultura, de formação, de informação séria. Isso sem contar com o fato de que os telefonemas que as pessoas dão, certas de que exercem algum tipo real de poder ao escolherem fulaninho ou fulaninha rendem; à Vênus Platinada, todos os milhões que faltam ao país para que a saúde e a educação aconteçam de forma digna.


E o que estará fazendo o Bial neste programinha merreca, além de enchendo os bolsos de dinheiro e consolidando a sua popularidade? Jornalismo sério, para ele, é coisa do passado... Ah, sim! Uma das coisas que ele faz à perfeição é tentar redefinir este termo, “herói”. É, porque ao se referir aos habitantes daquela casa infame como “heróis” ou ele está redefinindo o termo ou está desmerecendo aqueles que, antes deste evento infeliz chamado BBB, assim foram chamados.


Este país é sério? Claro que não. Se fosse, além de privilegiar conteúdos melhores em todas as mídias, não estaria chorando junto a população do Rio de Janeiro por conta do incêndio que destruiu a tal cidade do samba e sim arregaçando as mangas com seriedade para sanar os efeitos dos deslizamentos de terra na região serrana no mês passado. Não é mesmo impressionante como uma tragédia daquelas, que privou muita gente de tudo o que tinha na vida, em termos materiais e afetivos, pode ser rapidamente nublada nos noticiários por outro evento muito menor, que priva algumas poucas pessoas de alguma diversão carnavalesca, mas que é lamentado às lágrimas, como se fosse o fim do mundo?


É por estas e outras que ocasionalmente eu gostaria de ver menos, escutar menos, entender menos e me aborrecer menos.


Um dos prêmios que recebemos da vida por dilatar nossa visão de mundo, aguçar nossa mente curiosa e questionadora e sensibilizar nossos corações é este, uma dolorosa solidão e um real distanciamento das coisas ditas normais e legais, das realidades que fazem a festa nas vidas dos alienados e adormecidos.


Tenho um amigo professor que diz convictamente que “felicidade é saúde e ignorância”.


Quer definição melhor? Se o cara é saudável, pode tudo, come de tudo e todas que aparecem, pinta e borda e não se preocupa com nada que vá um centímetro além do seu umbigo ou da tela da sua TV (onde heróis de barro correm pela casa do BBB com microfones pendurados na cintura), como é que ele vai ser infeliz? Ele, que acredita nas mentiras públicas, na mídia perversa, que vive mergulhado na tríade cerveja com churrasco-futebol-sexo, que não tem a menor noção de que há uma realidade paralela muito mais elevada e interessante esperando apenas pelo seu interesse para se mostrar, vai ser infeliz porque?


Na próxima encarnação eu quero nascer (e permanecer) assim: burra, bonita e muito saudável. Claro que daí então eu não estarei aqui, pretensiosamente escrevendo sobre meus perrengues para vocês, Mas tenho certeza de que sempre haverá quem o faça (quiçá com mais talento e brilhantismo do que eu!)



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A INDIFERENÇA HUMANA.

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A cultura da indiferença é uma cultura cruel.

E isso é assim apesar das campanhas religiosas, de alguns comerciais de TV sensíveis, dos muitos livros já escritos sobre o tema , das campanhas sociais e alguns bem intencionados nos exortarem a dirigirmos um olhar amoroso para o nosso semelhante, a estendermos as mãos em auxílio aos mais necessitados, a nos doarmos em favor do outro.

Eu conheço esta realidade muito bem porque, por conta dela, eu já tomei muitas atitudes em favor de outros seres humanos, de animais, de grupos necessitados de auxilio e me intrometi em várias realidades que não as minhas tentando ser útil.

Adotei crianças, recolhi animais abandonados, fui voluntária em n+1 ONGs e comunidades religiosas, dirigi voluntariamente instituições filantrópicas... e isso tudo pelo mero prazer de facilitar e tornar mais bela a experiência de vida dos outros.

Mas o que a vida ensina no cotidiano aos puxões de orelhas, na crua experiência dos dias, é algo bem diferente. A prática da vida no dia-a-dia, a violência das ruas, a lei de Gerson reinante em todo e qualquer canto (filas, trânsito, restaurantes e etc.) e a competitividade em todas as esferas sociais nos dão tapas na cara nos ensinando, por exemplo, a desviar os olhos quando vemos um homem bêbado, batido pela vida e reduzido a nada, jogado numa calçada qualquer, visto que “ele bebe porque quer”; ensinam-nos a fechar bem fechadinho o vidro nos semáforos, porque as crianças que vendem doces nas paradas dos carros são trombadinhas em potencial; nos ensinam a ignorar a presença do vizinho, porque além de a televisão ser bem mais interessante do que ele, ela nunca nos pede favores, apenas nos vende ilusões e mentiras (o que é muito mais cômodo). E é por isso, porque a vida é uma escola cruel, dura e fria, que acontecem coisas como a relatada a seguir.

O corpo de uma idosa portuguesa foi encontrado, na cozinha de seu apartamento em uma vila a 25 km de Lisboa, Portugal, quase nove anos depois do registro de seu desaparecimento. A descoberta ocorreu na terça-feira (08/02), dia em que ela seria despejada por atrasar a prestação do imóvel. “Foi uma vergonha para o país. Se não fossem as Finanças (órgão responsável pelo despejo) quererem o dinheiro deles, o corpo continuaria lá”, diz Aida Martins, de 82 anos. Foi ela quem, em agosto de 2002, avisou as autoridades locais sobre o desaparecimento da vizinha, Augusta Martinho, que completaria 96 anos neste sábado, dia 12.


“Eu olhava para a janela dela, que tinha luz acesa todos os dias. Até que um dia a luz apagou-se".
A aposentadoria havia sido cortada em 2003. Aida enviou de volta os recibos que se amontoavam na caixa de correio de Augusta. A energia também foi cortada. “Quando eu ia trabalhar, olhava para a janela dela, que tinha a luz acesa todos os dias. Até que um dia a luz apagou-se”, conta a aposentada Fernanda Borges, de 55 anos, também moradora do prédio.


Após localizar um parente pela lista telefônica, como orientada, Aida afirma ter voltado à Guarda Nacional Republicana para abrir o inquérito. “Localizaram uma foto de quando ela era professora em outra cidade e me perguntaram se eu a reconhecia. Disse que sim", afirma Aida, que foi orientada a aguardar. Os pedidos de arrombamento não adiantaram, conta a idosa. “Eu disse: o condomínio paga a fechadura."

Na terça-feira, os novos proprietários, um funcionário das Finanças e um chaveiro chegaram para tomar posse. A porta de entrada já havia sido aberta, mas o corpo de Augusta impedia a entrada na cozinha. Os bombeiros foram chamados. “Havia também o cadáver de um cão e de alguns pássaros, que deviam fazer companhia para ela, mas nunca houve cheiro algum”, diz Luís Pimentel, comandante dos Bombeiros de Agualva-Cacém, que atenderam à ocorrência. Em 43 anos de profissão, diz ele, foi a primeira vez que se deparou com um caso como esses.

“Ela era muito amiga dos animais. Ralhava com ela algumas vezes, pois dava comida aos gatos aqui na rua e atraía ratos”, diz Júlio Luís, de 60 anos, dono de um pequeno café ao pé do prédio da vítima. “Ela era pouco sociável. Só passava para jogar o lixo fora.”

Apesar de ser uma das primeiras moradoras do prédio, Augusta era reservada, segundo os vizinhos. “Era só bom dia, boa noite na escada”, diz a aposentada Laurinda Cardoso, de 77 anos, que mora no andar de baixo ao de Aida. “Ela só tocava a campainha para pagar o condomínio”. O marido havia morrido alguns anos atrás. Ela não tinha família, não estava inscrita em nenhuma associação de terceira idade. “Sabíamos que ela morava ali, mas não mantínhamos contato”, diz Felipe Santos, da Junta de Freguesia (semelhante, no Brasil, à subprefeitura) de Rio do Mouro. “Ninguém consegue explicar como isso ocorreu. Mas ocorreu”.

E é assim que encerro a coluna de hoje, com uma minúscula oração:

-“Dona Augusta, neste momento eu peço ardentemente "Àquele que governa os Universos" que a senhora encontre pessoas boas e amáveis, carinhosas e ternas aí onde a senhora está agora e que isto seja suficiente para que a senhora esqueça os tristes momentos de isolamento e a morte solitária que teve que vivenciar. Amém.”

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

UM CONTO DE FADAS REALIZADO.

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A internet pode ser aquilo que você quiser: fonte de problemas, de informações, de alegria, de amor ou de inspiração. Como tudo o mais na vida, a grande rede não é boa nem má, é apenas aquilo que você faz dela. Há pessoas que aprendem novas línguas pela internet, enquanto há também as que aprendem a fabricar bombas caseiras. Existe quem se dedique a informar os melhores caminhos na vida em seus blogs e sites e há aqueles que se dedicam a infernizar a vida do seu próximo, veiculando negatividades de todo tipo. Enfim, não são as pessoas que postam conteúdos em suas páginas que o levam por este ou aquele caminho, e sim seus cliques mais ou menos sábios que irão proporcionar-lhe viagens mais ou menos felizes.

Eu tenho sido razoavelmente sábia nas minhas incursões pela rede e, por conta destas escolhas, tenho aprendido muito e compartilhado com gente do planeta inteiro assuntos que jamais teriam chegado até mim de outra forma. E isto é uma dádiva, não é mesmo? Um milagre moderno, eu diria.

Ontem recebi um e-mail com um PPS muito interessante, que me comoveu de verdade, um sopro de vento sobre as brasas agonizantes da minha fé na capacidade humana de amar verdadeiramente. Nele se conta a história de um garoto incomum que, movido por desejos incomuns, realizou uma tarefa também incomum, inspiradora e emocionante. Sem nenhum rótulo religioso ou político partidário, este rapaz fez, em poucos anos de vida, aquilo que milhões de nós jamais realizaremos ao longo de eras. Falo de Ryan Hreljac, o menino que tirou a sede de meio milhão de africanos

Ryan nasceu no Canadá em maio de 1991. Um dia, na escola, quando ele tinha apenas seis anos, sua professora falou à classe sobre como viviam as crianças na África. Profundamente comovido ao saber que algumas até morrem de sede porque não havia poços de onde tirar água, imediatamente comparou sua realidade, onde girar a torneira era suficiente para se fartar de água pura durante horas, com esta nova realidade que se lhe apresentava. E então Ryan perguntou quanto custaria para levar água a eles. A professora pensou um pouco e se lembrou de uma organização chamada WaterCan, dedicada ao tema, e lhe disse que um pequeno poço poderia custar cerca de 70 dólares.

Quando chegou a casa, Ryan foi direto falar com sua mãe, Susan, e lhe disse que necessitava de setenta dólares para comprar um poço para as crianças africanas. Sua mãe disse-lhe que ele deveria consegui-los e foi-lhe dando tarefas em casa, com as quais Ryan ganhava alguns dólares por semana. Ele finalmente reuniu os setenta dólares e pediu à sua mãe que o acompanhasse à sede da WaterCan para comprar seu poço para os meninos da África. Porém, ao ser atendido, Ryan foi informado de que o custo real da perfuração de um poço era de 2.000 dólares.

Susan deixou claro que ela não poderia lhe dar os 2.000 dólares, por mais que ele cortasse a grama e limpasse cristais durante toda a vida. Porém Ryan não se rendeu. Prometeu àquele homem que voltaria… e o fez. Contagiados por seu entusiasmo, todos se puseram a trabalhar: seus irmãos, vizinhos e amigos. Entre todo o bairro, conseguiram reunir 2.000 dólares trabalhando e Ryan voltou triunfante a WaterCan para pedir seu poço.

Em janeiro de 1999 foi perfurado um poço em uma vila ao norte de Uganda. A partir daí começa a lenda. Ryan não parou de arrecadar fundos e de viajar por meio mundo buscando apoios. Quando um novo poço, em Angola, estava pronto, o colégio começou uma correspondência com as crianças do colégio que ficava ao lado do poço, na África. Assim Ryan conheceu Akana, um jovem que havia escapado das garras dos exércitos de meninos e que lutava para estudar a cada dia. Sentindo-se cativado por seu novo amigo, Ryan pediu a seus pais para ir vê-lo.
Com um grande esforço econômico, os pais pagaram sua viagem a Uganda e Ryan, em 2000, chegou ao povoado onde havia sido perfurado seu poço. Centenas de meninos dos arredores formavam um corredor e gritavam seu nome. - “Sabem meu nome?”, Ryan perguntou a seu guia. - “Todo mundo que vive 100 quilômetros ao redor sabe”, ele respondeu.

Hoje em dia, Ryan –com 19 anos- tem sua própria fundação e já conseguiu levar mais de 400 poços à África. Encarrega-se também de proporcionar educação e de ensinar aos nativos a cuidar dos poços e da água. Recolhe doações de todo o mundo e estuda para ser engenheiro hidráulico. Assim, Ryan faz a seu modo muito mais do que estes governantes presunçosos (que conhecemos em toda parte) para acabar com a sede na África.

Inspirador... não começa com “era uma vez”, mas é muito mais perfeito do que o mais perfeito dos contos de fada, não é mesmo?
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PARA ONDE CORREMOS?

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-“Eu ando pela rua e os automóveis correm para quê? As crianças correm para onde?”... assim canta Adriana Calcanhoto, externando em palavras musicais minha perplexidade contemporânea sempre repleta de questões transcendentes e incômodas. Tudo corre: o tempo, as pessoas, os carros, os sentimentos... fica a pergunta: para onde?

Eu ainda posso me lembrar de um tempo em que nos fins de tarde havia cheiro de café e bolo de fubá fresquinho, postos sobre a toalha de tecido limpo e cheiroso, seco num varal ao sol. Era um tempo em que quase tudo girava em torno de coisas hoje consideradas tolas, na verdade tão importantes quanto o ar que respiramos: amizade, convívio familiar, alegria de conviver, afeto, apoio mútuo e bem-querer.

(Hoje, a roupa é seca na secadora elétrica e tem cheiro de amaciante: o café sai das máquinas caras das cafeterias e é servido pelas mãos experientes, profissionais e frias de um barista, e o bolo de fubá, industrializado, perdeu o encanto daquele sabor caseiro, proporcionado pelas sementinhas de erva-doce e pelo carinho de quem o produzia.)

O tempo passou e junto com ele se foi a poesia, a leveza, a integridade das pessoas, a claridade dos dias. Em troca o progresso nos trouxe coisas outras, tais como a insônia, o stress, a síndrome de pânico e a depressão. Brindes modernos estes, que recebemos gratuitamente já quando aportamos no cais da adolescência, que é quando começamos a ser cobrados como adultos pelo mundo que nos cerca. Sim, pois todo adolescente que se preza hoje cursa aulas de Inglês, Informática, cursinho, escola, baladas, tem vida social e amorosa intensas e faz de tudo para ser um clone bem sucedido das figuras globais, ícones de uma estética artificial e enlatada que acomete de desespero todos aqueles que, por infelicidade, não se adaptam ao modelo imposto.

Andamos tão apressados, desatentos e sobrecarregados de cobranças sociais, que me parece imprescindível perguntar: você já se perguntou alguma vez o que está fazendo com sua vida?
Para onde exatamente você está se encaminhando?

Os valores mudaram tanto que, ocasionalmente, fico estarrecida ao ver o quanto nos perdemos de nós mesmos. Parece que nós nos esquecemos de sentir, de cheirar, de parar para olhar, parar para viver e respirar, de parar para realmente vermos algo e nos surpreendermos com os milagres diários, de parar para nos emocionarmos. E por que, hoje em dia, nós não nos surpreendemos, nem sentimos, nem mergulhamos profundamente nas experiências, nem vivemos mais e mais? Pode ser que seja porque esperamos, equivocadamente, que um brilho mágico de glitter ou néon venha de fora para nos iluminar e enfeitar, enquanto que, na verdade, é apenas de dentro de nós que alguma luminosidade pode surgir.

Alheios a esta verdade, seguimos acomodados às expectativas alheias impostas pelo meio, expectativas que já vêm enlatadas com os conservantes do mais puro delírio social, enquanto aguardamos o lançamento da “felicidade instantânea”, quiçá vendida em pacotinhos tetrapack a preços módicos.

Construir a própria felicidade trabalhando, correndo riscos, pensando, questionando valores, ousando e abrindo o peito ao bom e ao novo? Qual o quê! Nada disso, pois sempre será mais simples nos atermos à banalidade do usual, do comum e amplamente aceitável, para sermos festejados e consumidos por outros seres tão tacanhos e, porque não dizer, covardes quanto nós.
Presos a valores risíveis e insanos, nem temos tempo de raciocinar, de refletir, repensar ou de escolher livremente, pois não podemos amar o azul num mundo só de amarelos, sob o risco de sermos considerados “estranhos” ou “anormais”. Não temos tempo nem vontade de enxergar as mil maneiras diferentes pelas quais estamos matando o romantismo, a fraternidade, o planeta e a vida, tal como a conhecemos.

Vivemos assim, no “piloto automático”, fazendo só e tão somente aquilo "que deve ser feito", prioridade sempre definida pelo meio e pelo outro, nunca por nós mesmos, os mais prováveis soberanos dos nosso destinos. Optamos sempre por aquilo que nos é mais fácil, que é aceito e festejado pela família e pelo padrão social.
Eternamente apegados à mesmice generalista, vivemos para satisfazer estas expectativas pré-fabricadas que o meio nos impõe. Esquecemos-nos dos nossos corações e da nossa pura criança interior. Eles também têm voz e querem falar mais alto, mas nós os silenciamos quando ignoramos o privilégio de podermos abandonar, a qualquer momento, o caminho predeterminado pela “matrix”, sem dever nada a ninguém e sem nos atermos ao orgulho vazio de sermos apenas aquilo que esperam de nós.

Diuturnamente testemunho sonâmbulos andando e colidindo entre si nas calçadas repletas de qualquer cidade. E sempre me espanta o número de mortos vivos que dirigem, orgulhosos e vaidosos, seus reluzentes carros do ano, indo e vindo em alta velocidade de não sei onde para lugar algum.

Vejo também, com certa compaixão, homens de terno que correndo pelas ruas sob o Sol abrasador, como quem corre num pesadelo (e sem saber do que!), enquanto mulheres de todas as etnias tentam ficar loiras, jovens (mesmo aos cinqüenta ou sessenta anos) e palatáveis aos machos de plantão, não se importando com a qualidade das relações afetivas que construirão em cima de tantos enganos e ilusões.

A verdade é que, de certa forma, estamos nos tornando marionetes da ilusão, andróides impessoais, repetindo sem parar padrões consagrados. Conseguimos nos industrializar, nos pasteurizar, abolindo o brilho das nossas almas e nublando nossa capacidade de reflexão pessoal. Mas saiba: você sempre pode escolher despertar e não se submeter, portanto, acorde para sua realeza pessoal, sinta mais e pense menos, reflita mais e aceite menos as sugestões da matrix, escolha por si mesmo cada um dos seus passos.

Comece escolhendo a sua comida, suas roupas e seu cabelo, sem se prender ao padrão global ou aos letreiros nas praças de alimentação. E vá, aos poucos, resgatando sua autonomia de cocriador da existência, vivenciando seus aspectos divinos, extraindo de si e da vida aquilo que de melhor puder extrair. Siga vivendo, enfim, com mais poesia e entrega, com mais atenção aos momentos, fruindo os fatos da vida em vez de atropelá-los.

E saiba: só você pode fazer isso por você, ninguém poderá ajudá-lo nesta tarefa. Assim, sugiro que você arregace as mangas e comece agora o mais importante trabalho da sua vida, o de resgate daquele ser divino, pleno e reflexivo que você sempre foi. Ah, e um detalhe: faça isto enquanto é tempo, ok?